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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Nasce um astro: Kids Auto Races at Venice (1914)


Durante seis minutos, uma situação cômica se repete. Durante 240 segundos, uma figura chama nossa atenção: um homem de trajes rotos, chapéu e bengala, com modos elegantes. É a primeira aparição do adorável vagabundo (The Tramp, chamado por aqui de Carlitos) criado por Charles Chaplin.
Sim, é um curta histórico. Mas isso não ameniza suas falhas. A situação cômica é repetida à exaustão. O vagabundo nada mais faz do que entrar na frente de um cinegrafista que grava a corrida das crianças. Parece engraçado no início, mas conforme o filme avança temos a impressão de que, de “acidente”, a ação passa a travessura, e o vagabundo irrita-se ao ter sua intervenção criticada. Ele invade a pista e atrapalha a corrida das crianças e parece fazer isso de propósito.

Ainda distante nos modos e no bom coração do mendigo que faz de tudo para que sua amada volte a enxergar em “Luzes da Cidade” (City Lights, 1931) ou o pedinte que aceita ser preso no lugar de uma bela órfã em “Tempos Modernos” (Modern times, 1936), aqui a personagem parece sempre zangada.  Embora não seja tratado com polidez pelos cinegrafistas, há algo de furioso e desagradável em sua expressão facial. Ele chega inclusive a irritar-se com as crianças passando, mesmo sabendo que ele é que está no lugar errado.

A estreia pode não ser cheia de glamour ou méritos, mas arranca algumas risadas. Felizmente, durante mais de 20 anos, Chaplin pôde desenvolver ao máximo as potencialidades cômicas da personagem e, finalmente, chegar ao ápice com obras-primas como “Em busca do ouro” (The gold rush, 1925) e as duas pérolas valiosas do cinema mudo da década de 1930. 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Lugar de louco é no cinema



Um mesmo tema pode ser usado para causar riso ou fazer denúncia. Em meados do século XX, a loucura foi retratada no cinema das mais diversas formas.  Em dramas comoventes ou comédias amalucadas, lá estavam enfermeiras, psiquiatras, camisas-de-força, choques elétricos e outras terapias convivendo no ambiente sinistro dos manicômios.

Este mundo é um hospício / Arsenic and Old Lace (1944): Cary Grant acaba de se casar e leva a esposa para morar com sua excêntrica família. Dividem a mesma casa duas tias idosas que envenenam velhos solitários, um irmão que pensa ser Theodore Roosevelt e, como se não bastasse, chega também um irmão desaparecido há tempos, acompanhado de um cirurgião plástico, responsável pela operação que o deixou parecidíssimo com Boris Karloff. 

Lembre-se: Cary era o normal
da família
Meu amigo Harvey / Harvey (1950):James Stewart continua adorável, mas desta vez tem como melhor amigo um coelho branco gigante que só ele vê. Sua irmã, vivida por Josephine Hull, em uma performance ganhadora do Oscar, decide interná-lo em um manicômio, mas ela é que é considerada louca. É uma comédia, mas o ambiente sombrio e desumano dos hospícios está lá.

Quando fala o coração / Spellbound (1945): Gregory Peck, o novo diretor de uma clínica psiquiátrica, parece ser mais perturbado que seus pacientes. Cabe à cerebral doutora Constance (Ingrid Bergman) descobrir o que o perturba – e tentar domar seus próprios sentimentos amorosos pelo colega/paciente. A sequência idealizada por Salvador Dalí, a música de Miklós Rózsa e a surpreendente causa da perturbação de Peck compensam os diálogos didáticos sobre a psicanálise.

Na cova da serpente / The snake pit (1948): Olivia de Havilland está internada em um manicômio e sofre com as condições impostas pelas enfermeiras. Em um ambiente dividido em pavilhões de acordo com a gravidade do estado dos doentes, ela só encontra esperança com o doutor Krik, que está disposto a ajudá-la a se curar, nem que para isso precise de choques elétricos e soros da verdade. Com uma explicação comum de traumas de infância, esse filme se torna célebre por mostrar a dura realidade, o que demandou uma minuciosa pesquisa de campo por parte de Olivia.

De repente, no último verão / Suddenly, Last Summer (1959): Catherine (Elizabeth Taylor) foi mandada pela tia Violet (Katharine Hepburn) para um hospício para passar por uma lobotomia. A intenção é descobrir o que causou a morte do amado filho de Violet, Sebastian, presenciada por Catherine e que a deixou profundamente perturbada. Montgomery Clift, o médico encarregado da instituição psiquiátrica superlotada e sem muita infraestrutura, decide investigar o caso, conhecendo melhor a excêntrica relação entre mãe e filho e convencendo Catherine a contar o que aconteceu “de repente, no último verão”.
Uma cruz à beira do abismo / The nun’s story (1959): Gabrielle van der Mal, ou melhor, irmã Luke (Audrey Hepburn) é uma freira sem muita vocação que deseja ser enfermeira no Quênia. Antes disso, ela terá de passar por verdadeiras provas de fogo, como servir em um manicômio na Bélgica, lidar com loucas perigosas e vivenciar um cotidiano de choques elétricos, banhos “terapêuticos” e camisas-de-força.

Menção honrosa para Fogueira de Paixões / Possessed (1945): Louise (Joan Crawford), internada em estado de choque e tomando soro na veia, narra seu passado.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Luz, câmera, paixão!

As demonstrações dos diversos tipos de amor mudaram muito ao longo dos tempos. Na vida e nas artes, as relações estão cada vez menos ingênuas e discretas. Por ser um tipo de arte recente e em constante transformação, o cinema é uma grande fonte de exemplos destas mudanças.

Nos primórdios da sétima arte, quando os gestos largos e expressivos compensavam a falta do som, o galanteio era comum. Belos cavalheiros tiravam as cartolas e faziam mesuras diante das damas apaixonadas de saias compridas. Discrição total era a palavra de ordem da “belle époque”.

Com o advento do som, das guerras e da Grande Depressão, a mulher ganha destaque na sociedade e na relação. Filmes com herdeiras inconseqüentes à caça de um marido viram moda, criando comédias amalucadas com final feliz.

Mesmo assim, o beijo não era comum. As investidas amorosas se estendiam durante o filme, e a rendição ao amor coroava o final. Beijos amistosos entre pessoas do mesmo sexo chocavam as plateias. Polidez e bons modos, só excetuados pela selvageria romântica de Tarzan e Jane!

Tempos depois, foi dado enfoque ao casamento e suas agruras. Passada a paixão e os primeiros beijos, o mar de rosas dá lugar ao mar revolto. Entretanto, o casal conseguia superar as adversidades, salvo em memoráveis casos em que os pombinhos se separavam no final, embora “sempre tivessem Paris”.

Rick e Ilsa: casal-símbolo do romantismo hollywoodiano 
Depois da época em que confusões de identidade acabavam em romance nos musicais, chegaram os casais modernos, com grande diferença de idade, fazendo um cativante jogo de sedução. Assim, as polêmicas cenas de maior intimidade conjugal dividiam as telas com traições escandalosas.

Já foi retratado o amor bandido, além da vida, que se repete fora dos filmes, juvenil, senil, erótico, platônico, impossível, destrutivo, divertido ou destruído pelas ambições de uma “femme fatale”. Sem dúvida, o cinema romântico é uma prova irrefutável de que a arte imita a vida.  

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Grandes Coadjuvantes

Eles nunca viram seus nomes em destaque nos créditos iniciais, mas isso não impede que suas atuações sejam tão brilhantes quanto a dos mais elogiados protagonistas. Vários são os eternos coadjuvantes que roubam a cena e a nossa admiração.

Thelma Ritter: Pobre Thelma! Foi seis vezes indicada ao Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante e nunca ganhou (Deborah Kerr tem esse mesmo recorde na categoria de Melhor Atriz). Quatro dessas indicações foram consecutivas (1950 – 1954). Mesmo assim, esteve em vários filmes importantes, como “A Malvada”, “Janela Indiscreta” e “Os Desajustados”. Sem grandes atrativos físicos, desempenhava com maestria os papéis de enfermeira ou governanta.  Ganhou um Tony em 1958, empatada com Gwen Verdon.
Em Confidências à Meia-Noite, Thelma Ritter
está a cara da Giulietta Masina!

Walter Brennan:  Ao contrário de Thelma, Walter teve seu talento reconhecido: foi três vezes vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, por “Meu filho é meu rival” (1936, ano em que a categoria foi criada), “Romance do Sul” (1938) e “O galante aventureiro” (1940). Foi animador das tropas da Primeira Guerra e amigo de Gary Cooper. Fazia todos os tipos de papéis, mas ficou famoso por seus velhos personagens caipiras e peculiares (um acidente que deixou-o quase sem dentes criou marcas que o faziam parecer bem mais velho do que era). Começou no cinema mudo, mas não era creditado. Fez também várias participações em séries de TV.

Mary Astor: Filha de mãe portuguesa e pai alemão, jovem atriz do cinema mudo, Mary passou para o cinema falado em papéis secundários. Entre seus trabalhos estão “O Falcão Maltês”(1941) e “Agora seremos felizes”(1944). Ganhou um Oscar em 1942 por “A Grande Mentira” . Lutou com o alcoolismo, tentou suicídio e viveu alguns escândalos conjugais. Escreveu várias memórias que se transformaram em best-sellers.

Peter Lorre: Austro-húngaro, protagonista da obra-prima de Fritz Lang “M – O vampiro de Dusseldorf”(1930) e da primeira versão de “O homem que sabia demais”(1934), Peter Lorre foi aos EUA e conseguiu bons papéis secundários em  “O Falcão Maltês”(191), “Casablanca”(1942) e “Passagem para Marselha” (1944). Duas curiosidades: Lorre foi aluno de Freud em Viena e convenceu Humphrey Bogart e Lauren Bacall a se casarem apesar da diferença de idade.

Mercedes McCambridge: Ganhadora do Oscar em sua estréia cinematográfica (“A Grande Ilusão”, 1949), Mercedes fazia, em geral, mulheres amarguradas e antagonistas. Trabalhou também no teatro, fazendo, por exemplo, a protagonista de “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, e no rádio. Fez parte do Mercury Theater, grupo de teatro de Orson Welles. Alguns de seus trabalhos mais importantes foram em “Johnny Guitar” (1954), “Assim Caminha a Humanidade” (1956) e como a voz demoníaca de “O Exorcista” (1973).

Claude Rains:  O grande Capitão Renault de Casablanca era quase cego de um olho (devido a ferimento na Primeira Guerra Mundial), deu aulas de  teatro numa universidade, foi casado seis vezes, era nervosinho, sovina e desenhou a lápide do próprio túmulo. Mas era um grande profissional: memorizava as falas de todos os atores, mesmo não sendo protagonista. Entre seus trabalhos destacam-se: “Lawrence da Arábia”(1963), “Interlúdio”(1946), “Vaidosa”(1944) e “A estranha passageira”(1942).

Celeste Holm: A bela loira nunca passou dos papéis secundários, embora já tenha passado dos 90 anos. Mas isso não impediu que ela deixasse sua marca em filmes como “A Malvada” e “Alta Sociedade”, onde, inclusive, faz um dueto com Frank Sinatra. Outros grandes feitos da coadjuvante foram: estrear no teatro em “Hamlet”, ao lado de Leslie Howard; fazer cinco peças com o lendário George M. Cohan; ganhar um Oscar por “A Luz é para todos”(1948) ; ser porta-voz da UNICEF e ter um título de cavaleira dado pelo rei da Noruega. Desde os anos 50 participa de diversas séries de TV e agora está de volta à tela grande.

Donald Crisp: O ganhador do Oscar por “Como era verde meu vale” tem um currículo invejável. Estreou em 1908, aos 26 anos, esteve em 170 filmes, atuou no cinema mudo e no sonoro com o mesmo sucesso, dirigiu 72 produções (a maioria no cinema mudo)... tudo isso sem ser o protagonista. Além disso, foi membro dos exércitos inglês e americano e conheceu Winston Churchill ainda jovem. Ele teve a honra de estar no primeiro filme de Griffith (The Muskeeters of Pig Alley), em “O Nascimento de uma Nação” (como o general Grant), como um extra em “Intolerância”, vivendo o pai autoritário de Lillian Gish em “Lírio Partido”(1919),  
na primeira versão de “O Grande Motim” (1935) e muito mais!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Um privilegiado de quatro patas

Muitos fãs sonham em chegar perto de seus ídolos. Muitos sonham em se tornar também ídolos para outros fãs (não no estilo Eve Harrington em “A Malvada”, 1950, espero). Nem todos conseguem. Por outro lado, enquanto os humanos se decepcionam com o sonho de fama e fortuna, muitos animais chegam ao topo do Olimpo cinematográfico, protagonizando diversos filmes de sucesso e contracenando com as maiores estrelas de sua época.

Many fans dream about getting near their idols. Many fans dream about also becoming idols to other fans (not in Eve Harrington style, I hope). Not all of them succeed. On the other hand, while humans get disappointed with the shattered dreams of fame and fortune, many animals reach the top of the cinematographic Olympus. They are leads in many successful films and share the screen with some of the biggest stars of their time.
Skippy foi um deles. Se os anos 20 tiveram Rin-Tin-tin e os 40 contaram com Lassie, os anos 30 viram esse cãozinho se tornar superestrela. Talvez eu esteja exagerando, mas quando Skippy aparecia, ele roubava a cena.

Skippy was one of those lucky animal stars. If the 1920s had Rin-Tin-Tin and the 1940s had Lassie, the 1930s saw this little dog becoming a superstar. Mybe I’m exaggerating, but when Skippy showed up, he was a scene-stealer.
Não se sabe ao certo se Skippy nasceu em 1931 ou 1932. O fox terrier de pelo crespo esteve presente em famosas produções como os dois primeiros filmes da série The Thin Man (A Ceia dos Acusados e A Comédia dos Acusados), Cupido é moleque teimoso (1937) e Levada da Breca (1938).  Ele se aposentou em 1939, não sem antes lançar tendência: assim como a collie Lassie na década seguinte, na década de 1930 espalhou-se uma febre de fox terrier: todos queriam ter um cãozinho como Skippy.

We can’t know exactly when Skippy was Born – either 1931 or 1932 have appeared as birth dates. The Wire Fox Terrier was in famous films like the first two of The Thin Man series (The Thin Man and After the Thin Man), “The Awful Truth” (1937) and “Bringing Up Baby” (1938). He retired in 1939, but had already become fashionable: just like the Border Collie Lassie did in the following decade, in the 1930s Skippy originated a Fox Terrier fever. Everybody wanted to have a dog like Skippy.
Muitas vezes Skippy chegou a ser creditado com o resto do elenco, como em “A Ceia dos Acusados”, feito na época em que na abertura imagens das estrelas eram mostradas acompanhadas de seus respectivos nomes.  E não é para menos: em uma série de momentos ele rouba a cena e sua fofura desvia todos os olhares para ele.

In many occasions Skippy was credited alongside the rest of the cast, like in “After the Thin Man” (1936), made in a time when the opening credits had photos of the stars and their names. And Skippy deserves the star treatment: in many moments he steals the scene with his cuteness.
Em “Cupido é Moleque Teimoso”, por exemplo, atendendo pelo nome do Mr Smith, é motivo de uma briga judicial do casal recém-divorciado e sem filhos.

In “The Awful Truth”, for instance, he is called Mr Smith and is in the center of a legal battle of a just-divorced childless couple.
Em “Levada da Breca”, o cão George esconde o osso de dinossauro procurado por Cary Grant.

In “Bringing Up Baby”, the dog George hides the dinosaur bone that is pursued by Cary Grant.

Mesmo tendo mordido Myrna Loy, ele é digno de menção como um animal privilegiado. Não apenas porque ganhava de 200 a 250 dólares por semana, mas principalmente porque contracenou com estrelas de tamanha magnitude – mesmo sem ter consciência disso.

Even though having bitten Myrna Loy, Skippy is still worth being called a lucky animal, not only because he earned from 200 to 250 dollars a week, but because he acted alongside such wonderful stars – even we wasn’t aware of what acting was. 
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