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sábado, 21 de dezembro de 2013

Quem vai ficar com Ty?

Um dos atores mais bonitos e cobiçados dos anos 40 é disputado por duas das maiores estrelas da época, igualmente lindas e desejadas. Tudo isso em meio a intrigas, fama, sangue e areia. E em Technicolor!
Em “Sangue e Areia” (1941), Tyrone Power é Juan Gallardo, um famoso toureiro espanhol que abraçou a profissão do pai, morto na arena dos touros. Ele decide seguir essa carreira após ouvir o crítico Natalio Curro (Laird Cregar) dizer que seu pai não tinha talento. Juan prova que o sangue de toureiro corre em suas veias e alcança o sucesso em Madrid, voltando à sua cidadezinha para casar-se com seu amor de infância, Carmen Espinosa (Linda Darnell) e dar uma vida mais confortável para a mãe (Alla Nazimova) e a irmã (Lynn Bari).
Toureiro em dúvida
Se por um lado a simplicidade de sua cidade natal e de Carmen são importantes para ele, por outro há a excitação da nova vida que abre as portas apenas para os mais famosos toureiros, com a pompa e circunstância das festas e das casas de arquitetura ultrapassada. Quem personifica este estilo de vida é Doña Sol des Muires (Rita Hayworth), linda ruiva que um dia se encanta com Juan em uma tourada e decide fazer dele seu novo “boy toy”.
O filme foi um ponto decisivo na carreira das mulheres envolvidas. Foi a primeira vez em que Linda Darnell recebeu um número realmente expressivo de críticas positivas, embora ela mesma acreditasse que esse era o momento em que o público se cansava de suas heroínas sofredoras e boazinhas. “Sangue e Areia” foi o primeiro filme em cores de Rita Hayworth, que pela primeira vez interpreta a mulher que enlouquece (literalmente) um homem, em um prelúdio do que ela faria mais tarde em “Gilda” (1946). Alla Nazimova, que já havia perdido há tempos seu status de protagonista, faz uma de suas últimas participações.  
E como a vida imita a arte, Tyrone Power teve seus momentos de Juan Gallardo. Mas antes de prosseguir vamos estudar o nome do personagem criado por Vicente Blasco Ibáñez em seu romance “Sangre y Arena”, publicado em 1909. Juan lembra-nos imediatamente de Don Juan, o famoso conquistador. E Gallardo, apesar de significar “valente” em espanhol, é muito próximo do português “galhardo”. Segundo o dicionário, “galhardia” é a qualidade de quem é elegante e cortês. Por aí já descobrimos um pouco sobre o personagem: ele é um conquistador nobre.
Voltando a Tyrone Power: ele também seguiu a carreira do pai, também chamado Tyrone Power, que morreu enquanto trabalhava. Power Sr. teve um ataque cardíaco no teatro em 1931 e faleceu nos braços do filho, que em cinco anos seria uma estrela mundialmente conhecida. Ao deixar sua marca no cimento em frente ao Grauman’s Chinese Theater em 1937, ele fez questão de escrever que estava “seguindo os passos de meu pai”. Ty também foi um homem de muitas mulheres. Foram três casamentos e vários affairs, nem todos comprovados, que agitaram sua vida pessoal.
E a corrente continuou para as atrizes, que em outros filmes também duelaram por um homem. Linda Darnell batalha com Jeanne Crain pelo amor de um francês em “Noites de Verão / Centennial Summer” (1946), e Jeanne, por sua vez, havia lutado com Gene Tierney em “Amar foi a minha ruína / Leave her to Heaven” um ano antes... Mas continuemos antes que a corrente vá longe demais.
Em 1916, o próprio autor Ibáñez decidiu ser cineasta e filmar a história de seu livro. Seis anos depois, em 1922, o material foi usado por quem realmente entendia de cinema e o filme hollywoodiano “Sangue e Areia” teve Rudolph Valentino como Juan, Lila Lee interpretando Carmen e Nita Naldi no papel de Doña Sol. Em 1932 houve a proposta de fazer uma nova versão com Cary Grant e Talullah Bankhead. Uma pena que o projeto nunca se concretizou. Quem não adoraria ver Cary Grant vestido de toureiro?    
O diretor Rouben Mamoulian sempre esteve à frente de projetos ousados e inovadores, embora hoje não esteja na lista dos grandes de Hollywood. Mais uma vez ele dirige um filme espetacular, e muito desse espetáculo vem das cores, inspiradas em pinturas de Goya, El Greco e Velázquez. Em muitas ocasiões, Mamoulian andava pelo set com sprays de tinta e, ao invés de modificar a iluminação para criar uma determinada sombra, ele mesmo pintava parte do cenário para criar o efeito desejado.
Outra atração é um jovem Anthony Quinn no papel do “outro toureiro”. Quinn voltaria a antagonizar com Tyrone Power no ano seguinte, em “Cisne Negro”. E por falar em juventude, é em Technicolor que Linda Darnell surpreende: ela tinha APENAS 18 anos quando o filme foi rodado. E, de fato, com tantas cores e, surpreendentemente, pouco sangue nas touradas (o próprio Tyrone se sentiu mal ao ver uma tourada de verdade), “Sangue e Areia” merece ser visto em toda sua beleza.   


This is my contribution for the 3rd Annual Dueling Divas Blogathon, hosting by Lara, a diva herself, at Backlots. Fasten your seatbelts!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Variações sobre um mesmo tema: Um Conto de Natal (1935 e 1951)

Variations on the same theme: Scrooge (1935) and A Christmas Carol (1951)

Para os cristãos, o Natal é o dia de se comemorar o nascimento de Jesus, e todo o mês de dezembro acaba entrando na órbita da festa natalina. Mesmo as pessoas de outra religião acabam sendo contagiadas pelo espírito de Natal e acontecem as confraternizações, trocas de presentes e todos ficam com o coração mais mole, ajudando uns aos outros e desejando o bem do próximo (pelo menos é isso que eu gostaria que acontecesse). Todos, menos Ebenezer Scrooge, personagem criado por Charles Dickens que se tornou o símbolo do Natal inglês - e da avareza.

For christians, Christmas is the date to celebrate Jesus's birthday, and the whole month of December enters the Christmas spirit. Even people from other religions are contaminated by Christmas spirit and we have parties, gifts and all people become more lovable, helping each other and wishing only the best (at least that's what I wish that happened). All people, except Ebenexer Scrooge, a character created by Charles Dickens and one who became the symbol of the English Christmas – and of greed.
Ebenezer Scrooge (Seymour Hicks em 1935 e Alastair Sim em 1951) é o rabugento sócio da companhia Scrooge & Marley. Jacob Marley, o co-proprietário, morreu na véspera de Natal, sete anos antes do começo da história. Mas não é esse o motivo de Scrooge detestar o Natal: o tempo e a ganância fizeram dele uma pessoa amarga, que não gosta de nada. Ele vê o Natal como uma perda de tempo para os negócios e uma desculpa para que as instituições de caridade peçam dinheiro. Por isso Scrooge se recusa a ajudar dois representantes de uma instituição e também não dá folga para seu funcionário Bob Cratchit no dia de Natal.

Ebenezer Scrooge (Seymour Hicks in 1935 and Alastair Sim in 1951) is the grumpy partner in the company Scrooge & Marley. Jacob Marley, the other partner, died on Christmas Eve, seven years before our story begins. But it's not because of this fact that Scrooge hates Christmas: time and greed turned him into a bitter person, one who lieks absolutely nothing. He sees Christmas as a waste of time for business and an excuse for charity institutions to beg for donations. That's why Scrooge refuses to help two men from a charity institution, and he also refuses to give a day off to his employee Bob Cratchit on Christmas Day.
Naquela noite, Scrooge é visitado pelo fantasma de seu sócio, que o aconselha a mudar seu comportamento. Para ver a importância desta mudança, serão mandados três espíritos de Natal para Scrooge ao longo da noite: o espírito dos Natais passados, o do Natal presente e o do Natal futuro. Através da viagem com esses espíritos pelo tempo e espaço, Scrooge verá não apenas fatos importantes da sua vida que mostram sua amargura, mas também conhecerá melhor aqueles que o rodeiam.

That night, Scrooge is visited by the ghost of his partner, and he is advised to change his behavior. To show the important of this change, three spirits will be sent to Scrooge throughout the night: the spirit of Christmas Past, the spirit of Christmas Present and the spirit of Christmas Yet to Come. During the trip with these spirits through space and time, Scrooge will see not only important facts of his life – that ones that shaped his grumpiness – but he'll also get to know better the people around him.
Ambas as versões são bem fiéis ao livro. A de 1935 (“Scrooge”) tem várias falas retiradas diretamente da obra de Dickens, mas é limitada quanto aos efeitos dos fantasmas - apenas o espírito do Natal presente aparece por completo, os demais são apenas vozes e sombras. A de 1951 (“A Christmas Carol”) esbanja tecnologia: o intérprete do fantasma de Marley não pôde gravar as cenas com Alastair Sim, por isso gravou-as sozinho e sua imagem foi sobreposta às cenas de Alastair, ficando assim mais fantasmagórica. Entretanto, esta versão toma algumas liberdades e acrescenta cenas, deixando-a mais longa, mas também mais emocionante.

Both versions foloow the book closely. “Scrooge”, from 1935, has a lot of quotes taken directly from Dickens's work, but it uses limited technology to portray the ghosts – only thte spirit of Christmas Present is fully shown, the others are only voices and shadows. “A Christmas Carol”, from 1951, is very technological: the actor who portrays Marley's ghost wasn't able to shoot the scenes with Alastair Sim, só he shot them alone and his image was superposed to Alastair's scenes, giving a more fantasmagoric tone to it. However, this version takes on some liberties and adds some scenes, that's why it's longer, but also more moving.
Seymour Hicks já havia interpretado Scrooge em 1913, em uma das primeiras versões cinematográficas da história. Ele também interpretava o personagem no teatro desde 1901, que, por coincidência, foi o ano em que surgiu a primeira adaptação para o cinema do conto escrito por Dickens em 1843. Seymour pode ter tradição, mas foi Alastair que eternizou o personagem. De fato, Ebenezer Scrooge definiu sua carreira. As expressões faciais de Alastair são excelentes, em especial no fim - adoro a cena “I need to stand on my head!”. Alastair voltaria a encarnar o personagem em desenho animado, pois foi o dublador de Scrooge em um curta-metragem ganhador do Oscar em 1971.  

Seymour Hicks had already played Scrooge in 1913, in one of the first screen adaptations of the story. He also played the character on stage since 1901, the year in which Dickens's story, written in 1843, was first adapted to film. Seymour may have had the tradition on his side, but it was Alastair who personified Scrooge. Indeed, the character Scrooge defined his career. Alastair's facial expressions are priceless, especially in the end – I love the scene “I need to stand on my head!”. Alastari once more played Scrooge in a cartoon: he dubbed Scrooge in an Osdcar-winning animated short in 1971.
Já disse que a versão de 1951 é mais emocionante, certo? Isso acontece porque as mudanças na história original foram feitas para justificar sempre as ações de Scrooge, fazendo dele uma vítima de seu mentor, Mr Jorkin (Jack Warner). Surpreendentemente, nos Estados Unidos o filme não foi bem recebido, tendo estreado no Halloween e gerado pouco interesse no público.

I told you all that the 1951 version is more moving, right? This happens because changes in the original story were made to always justify Scrooge's actions, in a sense  that he was a victim of his mentor, Mr Jorkin (Jack Warner). Surprisingly, in the US the film was not well-received because it premiered on Halloween and few people went to see it.
Além das várias adaptações (o IMDb lista 95) , a obra de Dickens deixou outros legados. “Scrooge” se tornou sinônimo de “avarento, sovina” nos países de língua inglesa. Esse significado serviu para batizar um personagem da Disney: o tio Patinhas, ou Uncle ScroogeMcDuck. A exclamação de Scrooge logo ao início (“bah... Humbug!”), que infelizmente é dita apenas uma vez na versão de 1951, ressuscitou recentemente graças a um dos gatos mais famosos da internet: Grumpy Cat. 

Besides the many adaptations (IMDb lists 95 of them), Dickens's work left other legacies. 'Scrooge' became a synonym of 'stingy' in English-speaking countries. This meaning was taken in consideration to baptize a Disney character: Uncle Scrooge McDuck. Scrooge's exclamation right in the beginning (“bah...Humbug!”), unfortunately said only once in the 1951 version, was resurrected thanks to one of internet's most famous felines: Grumpy Cat. 
A primeira vez em que Scrooge apareceu no cinema foi em 1901, em um curta surpreendentemente bom, apesar de os fantasmas serem atores com lençóis na cabeça. Claro que Thomas Edison não poderia ficar para trás e fez sua versão em 1910. Apesar de o silêncio prejudicar um pouco a história, precisamos destacar a qualidade dos efeitos especiais criados. No rádio a história também foi bastante popular, e quem fazia o papel de Scrooge era Lionel Barrymore. Na televisão, há que se destacar a versão de 1949, narrada pela bela voz de Vincent Price.

Scrooge's film debut was in 1901, in a surprisingly good short film, even though we have here ghosts that were actors with sheets on their heads. Thomas Edison, of course, had to make his own version in 1910. The silence may be bad for the overall quality of the movies, but we must point that the special effects are outstanding. In radio the story was also very popular, and who played Scrooge was Lionel Barrymore. In television, we must point out the 1949 version, narrated by Vincent Price's beautiful voice.

Clique nas palavras e números em negrito para ver os filmes completos!

Click the words and numbers in bold to watch the full movies!

This is my contribution to the Christmas Movie Blogathon, hosted by Chris and Family Friendly Reviews. Ho, ho, ho!

Eu volto antes do Natal, mas deixo vocês com uma foto da minha árvore inspirada no cinema (cliquem para ver melhor os detalhes)!

I'll be back before Christmas, but for now you can see my film-inspired Christmas tree (click to see all the details)!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Jeanne Crain: adorável sofredora

Até o final de novembro, Jeanne Crain era apenas um nome e um rosto bonito que eu tinha em mente. A primeira semana de dezembro foi recheada com três filmes dela e, seguindo a lógica, todos os sábados do mês pertencem a Jeanne no Telecine Cult. Quem escolheu a programação deve ser muito fã da moça. Se isso não for uma enorme coincidência, será uma bela forma de homenagear Jeanne Crain, que nos deixou há 10 anos. Que tal descobrir mais sobre ela?
Jeanne Elizabeth Crain nasceu em 25 de maio de 1925. No Ensino Médio teve sua primeira experiência como atriz ao ser convidada para fazer um teste com Orson Welles. Jeanne não passou, mas decidiu que atuar seria sua profissão. Aos 18 anos estreou em “Entre a Loura e a Morena / The Gang’s All Here” (1943) e conseguiu papéis de maior importância nos anos seguintes. No último dia de 1945, ela se casou com Paul Brooks (nome artístico de Paul Brinkman, um ator de pequenos papéis) e com ele teve sete filhos. Jeanne faleceu em 14 de dezembro de 2003, dois meses após a morte do marido, com quem nem sempre foi feliz.
Na capa da Life, 1945
Em “Amar foi a minha ruína / Leave her to Heaven” (1945), Jeanne interpreta Ruth, a irmã de criação da possessiva Ellen (Gene Tierney), e precisa enfrentar o ódio quando começa a passar tempo demais com o cunhado, Richard (Cornel Wilde). O filme pertence a Tierney e sua beleza estupenda e loucura convincente. Mas Jeanne está lá, sofrendo e ganhando nossa simpatia a cada cena.
Em “Noites de Verão / Centennial Summer” (1946), filme que eu queria muito ver, Jeanne é Julia, uma moça tímida e inteligente que se encanta pelo francês Philippe (novamente Cornel Wilde), que está na Filadélfia organizando uma exposição em comemoração do centenário da independência americana. Novamente Jeanne deve disputar um homem com a irmã, mas desta vez é Linda Darnell que interpreta a caprichosa Edith. Edith quer apenas mostrar sua habilidade para conquistar qualquer homem, uma vez que está noiva, mas mesmo assim arma uma intriga para ficar com Philippe. Outro triângulo amoroso no filme é formado pelos veteranos Dorothy Gish, Walter Brennan e Constance Bennett.    
Jeanne finalmente consegue conquistar um homem, mas tem seu casamento ameaçado em “Quem é o infiel? / A letter to three wives” (1949). Ela é Deborah Bishop, a jovem esposa de um militar que acaba de chegar a uma cidadezinha cheia de fofocas. A moça mais perigosa da cidade é Addie Ross, que em um piquenique envia a mesma carta a três mulheres avisando que fugiu da cidade com o marido de uma delas. As outras duas destinatárias da carta são Lora Mae (de novo Linda Darnell), casada com um homem rude que tirou ela e a mãe da pobreza, e Rita (Ann Sothern), uma produtora de rádio casada com o professor de música George (Kirk Douglas), um homem pouco convencional e muito perspicaz.
No mesmo ano de 1949 Jeanne deixou de sofrer pelo sexo masculino, mas desempenhou seu melhor papel ainda com sofrimento em “O que a carne herda / Pinky”.A história de Pinky Johnson mostra como o racismo ainda era presente no pós-Segunda Guerra e deixa a qualquer espectador indignado. Pinky é uma moça de pele clara, recém-formada em enfermagem, que volta a morar com a avó negra, Dicey Johnson (Ethel Waters). O preconceito e as tentativas de violência contra a moça são várias, mas a situação toma outra dimensão quando ela recebe a herança de Miss Em (Ethel Barrymore), viúva de quem ela cuidou, e é impedida de desfrutar do que ganhou porque é acusada de ter influenciado na escrita do testamento. Pinky é hostilizada, mas vai ao tribunal com toda sua coragem. Esta interpretação fez com que Jeanne fosse indicada ao Oscar de Melhor Atriz, mas perdeu o prêmio para Olivia de Havilland.
Chega 1950 e Jeanne é a filha mais velha do casal Frank e Lillian Gilbreth (Clifton Webb e Myrna Loy) que, em 1920, cuidam de seus 12 filhos com disciplina em “Papai Batuta / Cheaper by the Dozen”. Frank quer otimizar o uso do tempo, e para isso faz algumas coisas bizarras, como uma operação de amídalas em massa. Pouco a pouco seus filhos começam a contestar o modo de vida imposto pelos pais, em especial Ann, personagem de Jeanne.
Resta mais um filme de Jeanne na programação para eu assistir: “Dizem que é pecado / People will talk”, de 1952, em que ela contracena com o sempre charmoso Cary Grant. A direção é de Joseph L. Mankiewicz, que dois anos antes havia se recusado a dar o papel de Eve Harrington em “A Malvada” para Jeanne, pois a considerava uma atriz limitada. Bem, os vários filmes de Jeanne Crain estão aí para provar o contrário.  


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O que John Wayne e Louise Brooks têm em comum?

À primeira vista, nada. Mary Louise Brooks (1906-1985) foi uma diva do cinema mudo que teve sucesso fazendo filmes na Alemanha e cujo papel mais conhecido é o da femme-fatale de “A Caixa de Pandora”. Marion Robert Morrison (1907-1979), mais conhecido como John Wayne, conseguiu fama nos westerns e sua imagem estará para sempre associada à do cowboy destemido. Duas figuras mais diferentes, impossível. Entretanto, em 1938, os dois fizeram um filme juntos, “Overland Stage Raiders” (“Bandidos Encobertos” no Brasil). Este foi o último papel de Brooks no cinema. Já John Wayne teria sua grande chance no ano seguinte em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”.
Um grupo rouba um pequeno carregamento de ouro que está sendo transportado em um caminhão por estradas áridas e desertas. Stony Brooke (John Wayne) chega de paraquedas para deter os bandidos e ajudar seus amigos a prendê-los e conseguir uma recompensa de mil dólares. Eles investem o dinheiro em gado e usam o lucro para tornarem-se sócios dos irmãos Beth Hoyt (Louise Brooks) e Ned Hoyt (Anthony Marsh) em uma empresa de transporte aéreo que promete levar o ouro da cidade com segurança a qualquer lugar.
O diretor George Sherman era uma constante nos filmes B que John Wayne fez em sua escalada para a fama nos anos 1930. Com menos de uma hora de duração, muitos destes filmes apresentavam o trio que aqui também está presente: “the three mesquiteers” (uma série de 51 filmes, sendo que Wayne participou de oito deles). Outra característica é muita ação e um bom tiroteio. Este filme de 1938 não deixa a desejar no quesito pólvora: são três tiroteios, cada um envolvendo um meio de transporte (cavalo, trem e avião).
Esqueça a linda Lulu. Neste filme Louise Brooks está bem diferente: com os cabelos negros na altura dos ombros, sem franja (surpresa! a testa dela é tão larga quanto a minha) e, infelizmente, com um papel pequeno e mal-desenvolvido. Não há sequer um ensaio de romance (apenas uma insinuação) entre os personagens de Louise e Wayne. Outra tristeza é ela não ter nenhum close expressivo: mesmo aos 32 anos, o que era considerado velhice em Hollywood, é possível ver que ela continua charmosa.
Depois no sucesso na Europa no final dos anos 20, Louise cometeu um erro fatal ao voltar para a América: recusou um papel em “Inimigo Público”, de 1931. Este papel ficou com Jean Harlow e poderia ter dado vida nova à carreira de Louise. Ao contrário de outras estrelas do cinema mudo, não havia nada de errado com a voz dela: podemos perceber que é uma voz forte que combina com sua persona. Este filme de 1938, que à época foi considerado sua volta às telas, na verdade foi uma despedida. Louise fez o filme porque precisava dos 300 dólares de cachê. Depois disso, mudou-se para Wichita, onde não foi bem recebida pela população local, e tempos depois pôde ser vista como vendedora em uma loja em Nova York. Saindo deste emprego, teve vários relacionamentos amorosos, escreveu excelentes artigos sobre cinema e foi redescoberta pelos jovens cinéfilos franceses na década de 1950.
O filme foi divulgado na época como uma maravilha, divertido, cheio de ação, com uma fotografia excelente e um dos melhores roteiros da série “the three Mesquiteers”. Hoje vemos que não é nada disso. De fato, se recebesse o tratamento de um grande estúdio e não fosse rodado em apenas nove dias, o filme até poderia ser ótimo. A ideia inicial é boa, as cenas de ação são cativantes e há bastante espaço para comicidade. John Ford poderia transformar o material em algo precioso. E se Louise Brooks tivesse mais cenas, então, o filme ficaria perfeito.

“Overland Stage Raiders” (1938) está disponível no YouTube com uma qualidade de imagem muito, muito, muito ruim. O filme também está disponível em BluRay, mas com boa qualidade de imagem.


This is my contribution to The Late Show Blogathon, hosted by Shadowplay. Swan songs were never so bittersweet.  

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Estudando cinema... sem sair de casa!

Três anos atrás, em 2010, na roda-viva do fim do ensino médio, tive de fazer uma redação sobre educação em casa (homeschooling) e educação a distância. Eu fui a única da classe a defender ambas, dissertando com entusiasmo sobre os cursos que podemos acessar sem sair de casa. Logo em seguida eu entrei nesse mundo de cursos online. Hoje estou cada vez mais apaixonada pelos MOOCs (Massive Open Online Courses, ou Cursos Online Abertos em Massa), aquelas pérolas oferecidas por grandes universidades, totalmente grátis. Um dos melhores MOOCs que eu fiz foi sobre, adivinha o quê? Cinema. 
O curso “The Language of Hollywood: Storytelling, Sound and Color” chamou minha atenção por sua proposta de analisar as mudanças causadas pela chegada do som e da cor através de filmes-chave, e nem sempre as películas escolhidas eram as mais óbvias. O curso, oferecido pela Wesleyan University de Connecticut, teve duração de seis semanas que passaram rápido demais para um assunto tão interessante.
Com o curso pude ver filmes que há muito estavam na minha lista, como “Scarface”(1932), e também assisti a outros que não conhecia, mas que se tornaram favoritos logo nos primeiros minutos, a exemplo de “Aplauso / Applause” (1929) e “A Filha do Bosque Maldito / The Trail of the Lonesome Pine” (1936), que também é conhecido como "Amor e Ódio na Floresta". Pude prestar atenção a detalhes que em geral passariam despercebidos, graças às lições longas mas proveitosas do professor Scott Higgins, sempre divertido e claro em suas explicações. No escritório do professor, aliás, é possível uma imagem de Judy Garland em “O Mágico de Oz” enfeitando uma estante.
As análises dos filmes, durando geralmente mais de meia hora, me deram uma nova percepção deles. Como gosto de escrever e criar histórias, é geralmente no roteiro que presto atenção. Pergunto-me se a história é convincente, bem elaborada e se é desenvolvida com maestria. Raramente outros detalhes chamam a minha atenção, a não ser nos raros casos em que eles são demasiado exóticos (ex.: roupas de Carmem Miranda). Observando cenas congeladas, foi possível ver muito além do roteiro, e percebi como tudo é milimetricamente pensado no cinema: às vezes um assobio ou um risco em um mapa dão dicas valiosas para o andamento e desfecho do filme. Cada segundo do rolo de filme é precioso, por isso cada imagem deve ser escolhida com uma finalidade. E foi assim que também passei a dar mais importância às pessoas que ganham o Oscar de Melhor Direção de Arte (categoria que até 1946 era chamada de Melhor Decoração de Interiores).
George Raft e Ann Dvorak em Scarface
Os grandes temas do curso eram o som e a cor, e como a chegada dessas novas tecnologias sacudiu o mundo do cinema. Assim foram analisados alguns dos últimos e melhores filmes mudos (“Anjo das Ruas / Street Angel” e “Docas de Nova York”, ambos de 1928) e os primeiros filmes falados de qualidade. Aliás, algo que eu já sabia, o silêncio é excelente recurso para criar os mais diversos efeitos. E se há alguém que entende de silêncio, é Harpo Marx. Por isso um dos filmes analisados foi “Os Quatro Batutas / Monkey Businnes” (1931), sobre o qual eu aprendi muito.
Muitas anotações... e Groucho Marx
E quem disse que todos os cenários eram construídos em estúdio? Eles podiam ser reaproveitados (como em “O Navio Fantasma / The Ghost Ship”, 1941) ou mesmo pintados em vidro e fotografados pelas câmeras (como em “Tudo que o céu permite / All that heaven allows”, 1957). E as filmagens em locação também podem criar maravilhas, como em “Trail of the Lonesome Pine”, em que vemos Sylvia Sidney, Henry Fonda e Fred MacMurray jovens e lindos, no início de suas carreiras e sempre usando roupas que condizem com suas mudanças de humor.
Com o curso descobri o que é “motif” (para quem não sabe, é um elemento simbólico que se repete ao longo do filme, como uma música, um gesto ou objeto), o que é o “Borzagian shot” (veja a pose de Janet Gaynor e Charles Farrell abaixo) e percebi alguns temas recorrentes nas filmografias de Henry Hathaway e Val Lewton. A avaliação foi muito fácil, com algumas perguntas para recapitular o conteúdo no final de cada vídeo e um teste final com 20 perguntas que podia ser refeito até 100 vezes. Assim como eu, outros estudantes ficaram animados e sugeriram outros cursos online sobre cinema, incluindo temas como noir, cinema mudo, musicais, Hitchcock e Truffaut. Uma coisa é certa: se houver outro MOOC sobre cinema, eu estarei lá!  

A Victoria do blog Girls Do Film está fazendo uma resenha de cada filme analisado no curso, destacando os pontos importantes de cada um. Veja no blog!

sábado, 23 de novembro de 2013

Hollywood, judeus e a polêmica de Harvard

Um livro foi publicado pela Universidade de Harvard. Nenhuma novidade nesse fato. O livro é sobre história do cinema. Também não é novidade, mas o fato já passa ser mais interessante. O autor do livro, judeu, defende a tese de que os magnatas de Hollywood colaboraram com o nazismo. Agora, sim, está criada a confusão. Em meio a elogios de leigos e críticas de especialistas, “The Collaboration: Hollywood’s Pact with Hitler” se tornou um dos livros mais debatidos recentemente.
A Alemanha era um mercado importante para o cinema americano e, por causa disso, na década de 1930, os estúdios decidiram cortar qualquer referência contrária à doutrina nazista e exterminar os personagens judeus. Isso é o que afirma o autor Ben Urwand. E ele solta uma bomba: a bordo de um navio, um mês depois do Dia D, magnatas de Hollywood e nazistas se reuniram para fazer negócio. Essas acusações geraram uma batalha na imprensa, sendo que uma das guerreiras mais atuantes na defesa de Hollywood é Alicia Mayer, sobrinha-neta de Louis B. Mayer. Não, Alicia não tem nenhum interesse financeiro na MGM: ela trabalha como editora e vive na Austrália. Mas está comprometida com a verdade e com a honra de sua família.
Ser judeu não era fácil. Mesmo para chegar ao estrelato em Hollywood, Julius Garfinkle teve de mudar seu nome para John Garfield, Bernard Schwartz virou Tony Curtis e Issur Danielovitch, quem diria, adotou o nome de Kirk Douglas. Mesmo assim, eles alcançaram o sucesso em uma indústria criada por judeus: não é preciso muita pesquisa para saber que os fundadores dos principais estúdios eram imigrantes judeus de vida difícil que triunfaram. Esse tópico é bem explorado no livro “An Empire of their Own: How the Jews invented Hollywood”, de Neal Gabler, publicado em 1988. Sim, esses magnatas eram forasteiros nos Estados Unidos, e mesmo os judeus americanos sofreram preconceito (veja “A luz é para todos / Gentlemen’s Agreement”, de 1948, para entender melhor o que estou dizendo), mas isso não os levaria a ficar do lado de um regime que pregava o extermínio dos seus semelhantes.     
Hoje sabemos que Hitler foi, usando um dos adjetivos mais leves, um monstro. Mas o povo da época não sabia. Para os alemães desesperados, desempregados e sem perspectiva, ele era a única saída. Para os ultraconservadores (sempre errados, não importa a situação), o discurso dele vinha de encontro aos seus pensamentos. Para quem via tudo de fora, era melhor não se intrometer para não acabar com uma guerra como a que terminara em 1918.
Muitas das resenhas favoráveis foram escritas por pessoas usando um tom de “eu já imaginava”, como se nada além do lucro cego fosse buscado em Hollywood. Provavelmente são leigos em história do cinema ou pessoas que jamais gastarão seu tempo vendo um filme feito na década de 1930. Porque quem realmente ama o cinema antigo sabe que não era só lucro que circulava em Hollywood: eram também sonhos. Os mesmos sonhos produzidos há mais de 70 anos ainda ecoam.
Muitos judeus que trabalhavam na Alemanha foram parar em Hollywood fugindo do nazismo e construíram uma carreira sólida por lá. Só para citar alguns, temos Curt Siodmak, Peter Lorre e Fritz Lang. Se os magnatas de Hollywood tinham um pacto com os nazistas, por que acolheram estes imigrantes, já que era certo que seus filmes não entrariam no mercado alemão, por mais cinéfilo que tenha sido Hitler? (As anedotas contam que o ditador ganhou uma série de filmes do Mickey no Natal de 1937, presente de Goebbels, e também que ele ofereceu uma recompensa par quem capturasse seu ídolo Clark Gable na guerra).
Não é preciso ver centenas de filmes ou explorar arquivos do mundo todo para encontrar películas que contradigam a tese de Urwand. Basta apenas uma, profética e surpreendente: “E o mundo marcha / The world moves on”, de 1934. O filme conta a saga de duas famílias, sócias no comércio de algodão desde o século XIX, que enfrentam as reviravoltas que começam com a Primeira Guerra Mundial e passam pela quebra da bolsa de Nova York, chegando em 1934 com espaço para prever o futuro. Entre os perigos que estão por vir, podemos encontrar cenas de desfiles inundados de suásticas e multidões cumprimentando o Führer.
Não adianta argumentar que “Confessions of a Nazi Spy”, de 1939, foi o primeiro a tratar do nazismo de modo crítico ou que na realidade foi “Tempestades D’Alma / The Mortal Storm” (1940) que alertou Hollywood sobre a ameaça nazista, pois esta pérola esquecida de 1934, dirigida pelo sempre ótimo John Ford e produzida pela Fox (William Fox, fundador e presidente da empresa na época, nasceu na Hungria e era filho de judeus alemães), está aí para provar seu pioneirismo. “O Grande Ditador” (1940), “Ser ou não Ser” (1942) e “Um barco e nove destinos / Lifeboat” (1944) atacaram a Alemanha nazista com a guerra já em andamento, “E o mundo marcha” o fez cinco anos antes de o conflito começar, logo no momento em que, segundo Urwand, Hollywood estaria colaborando com o nazismo. E detalhe: “E o mundo marcha” foi o primeiro filme aprovado pelo Hays Code, prova de que tudo que o filme mostra estava de acordo com a lei e o pensamento da época. 
E se Ben Urwand não passou nem perto de “E o mundo marcha”, ele também não contava com uma descoberta também referente ao ano de 1934: foi encontrado em setembro o primeiríssimo filme americano antinazista: “Hitler’s Reign of Terror”, que estreou em 34 com grande sucesso, mas ficou esquecido em um arquivo da Bélgica por pelo menos 40 anos. Quando eu fiquei a par do acontecimento, com certeza tive a mesma surpresa de Urwand quando este fez sua “descoberta” acerca da reunião no navio. 
Cena de "I Was a Captive of Nazi Germany", de 1936
P.S.: Não escrevo este texto apenas porque sou amiga de Alicia Mayer no twitter (e foi aí que eu conheci toda a polêmica), mas porque, como historiadora, tenho um compromisso com a verdade (e não é porque essa não é uma ciência exata que não precisamos de provas para as teorias, quaisquer que sejam). Não li o livro de Ben Urwand, mas afirmo que, nesta ocasião, Harvard cometeu um erro crasso. E parte desse erro foi, justamente, usar termos tão fortes e equivocados como “colaboração” e “pacto” no título do livro mais controverso do ano.     

Para mais filmes de 1930 antinazistas, leia o artigo “The Moguls and the Dictators: Hollywood and the coming of World WarII”.


Para uma compilação de críticas ao livro de Urwand, acesse o blog deAlicia Mayer.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

The Penalty (1920)

Quando vi a cinebiografia de Lon Chaney, “O Homem de Mil Faces” (1957) fiquei muito impressionada com a sequência, recriada com perfeição pelo ator James Cagney, em que Lon grava uma cena do filme “The Miracle Man”, de 1919. Neste filme, Lon se faz passar por um aleijado que é curado por um médium ou algo do tipo. Mas uma tragédia surge: o filme está perdido. Existem apenas alguns minutos de filmagem, e nesses minutos nem é Lon que mais brilha, mas sim o garotinho que é curado:

When I saw Lon Chaney's biopic, “The Man of aThousand Faces” (1957), I was very impressed with a sequence, recreated with perfection by James Cagney, in which Lon records a scene from the film “The Miracle Man”, from 1919. In this film, Lon pretends he is a crippled man who is cured by a spiritualist. But a tragedy strikes: this film is lost. There are only a few minutes available, and in these minutes Lon isn't even the best in scene: the little boy who is cured has all the attention:

Triste com a impossibilidade de ver e escrever sobre “The Miracle Man”, escolhi um filme feito no ano seguinte, e tive uma boa surpresa. “The Penalty”, já adianto, é maravilhoso. E se eu queria um Lon Chaney aleijado, pelo menos isso eu consegui.

Saddened by the impossibility of writing about “The Miracle Man”, I chose a film released the following year, and I had a good surprise. “The Penalty”, I already say, is superb. And, if I wanted a crippled Lon Chaney, at least this I got.
Um garotinho, não creditado, sofre um acidente de carro. O médico, Dr. Ferris (Charles Clary), erroneamente amputa as duas pernas do menino na altura dos joelhos. A vida da criança está arruinada por um erro médico. O menino cresce e, por incrível que pareça, ele se torna Blizzard (Lon Chaney), uma mente maligna que, talvez por sua incapacidade de andar, deseja se vingar dominando a cidade de San Francisco. Em sua casa, ele emprega dezenas de moças em uma manufatura de chapéus e também cria seu plano maligno com a ajuda de alguns capangas.

A little boy, uncredited, is involved in a car crsah. Doctor Ferris (Charles Clary), cuts off the boy's legs by mistake. The child's life is ruined by a mistake. The boy grows up and, as odly as it may seem, he becomes Blizzard (Lon Chaney), an evil mind who, maybe because of he is unable to walks, wants revenge by dominating the city of San Francisco. At his house, he has dozens of girls making hats, and also creates his evil plan with the help of some minions.
Quem vai investigar os negócios de Blizzard é Rose (Ethel Grey Terry), enviada pelo policial Lichtenstein (Milton Ross). Infiltrada na manufatura, ela logo se torna a favorita de Blizzard e começa seu dilema: ela deve cumprir sua missão ou deixar a compaixão pelo criminoso falar mais alto?

The person who investigates Blizzard's business is Rose (Ethel Grey Terry), sent by the police officer Lichtenstein (Milton Ross). Working undercover in the small factory, she soon becomes Blizzard's favorite, and her dilemma starts: does she have to finish her job or let her compassion for the criminal win over it?
A outra moça da história é Barbara (Claire Adams, não creditada), aspirante a escultora e filha do doutor Ferris. Um informante de Blizzard descobre que ela está procurando um modelo para sua escultura com o sugestivo nome “Satã depois da queda”. Blizzard consegue o “emprego” e vai se aproximando de Barbara, intercalando conversas sobre arte com palavras doces. O doutor Ferris, agora um médico respeitado, conseguirá salvar a filha do homem que só pensa em vingança?

The other girl in the story is Barbara (Claire Adams, uncredited), a wannabe sculptor who is also Doctor Ferris's daughter. A man paid by Blizzard finds out that she is looking for a model for her sculpture suggestively named “Satan Afther the Fall”. Blizzard gets the “job” and becomes closer to Barbara, talking about art and saying nice things to her. Could Doctor Ferris, now a well-known physician, save his daughter from the man who only thinks about revenge?
A primeira coisa a se destacar é como Lon Chaney se torna um aleijado. Com próteses nos joelhos, apoiado em muletas, ele sobe e desce rampas, degraus e inclusive senta em uma cadeira. Tudo como se realmente tivesse sido amputado. Na verdade, Chaney usava uma complexa técnica de amarrar as duas pernas e encaixar as próteses. Ele só podia ficar dez minutos assim, antes que a dor se tornasse insuportável. A expressão maligna, misto de ódio e sofrimento, em parte veio dessa grande provação. E os resultados foram duradouros, para o bem e para o mal. Para o mal, porque Chaney machucou alguns nervos permanentemente (ainda que haja controvérsias sobre esses danos). E para o bem, porque o resultado foi tão realista que foi necessário acrescentar uma cena em que Lon aparece andando normalmente, para que o público ficasse convencido de que o ator não era aleijado. Hoje esta cena se perdeu, mas creio que o público moderno sabe que Chaney tinha as duas pernas. 
  
The first thing to notice is how Lon Chaney becomes his crippled character. With prostheses in his knees, leaning on crutches, he goes up and down ramps, stairs and even sits on a chair. Everything done like a real amputee. Actually, Chaney used a complex technique that involved tying his two legs together and fitting them in the protheses. He could only stay ten minutes in this postion before pain became unbearable. His evil expression, a mix of hate and suffering, came partly from this probation. And results were lasting, for good and bad. For bad, because Lon hurt some nerves permanently (although there are controversies about these damages). And for good, because the result was só realistic that they had to add an extra scene with Lon walking normally, to convince the public that he was not really handicapped. Today this scene is lost, but I believe the modern audiences know that Lon Chaney has two legs. 
A reação de Blizzard, fazer parte do submundo do crime para se vingar do doutor Ferris e da sociedade em geral, pode até parecer exagerada, mas se olhada a fundo não é. Creio que pessoas que precisam amputar um membro sofrem até voltarem a ter uma vida normal. Mas Blizzard, além de perder as duas pernas, ainda ouve os médicos falando que a dupla amputação não era necessária, em uma cena que já imprime emoção logo no começo do filme. E devemos nos lembrar de que estamos na década de 1920, época em que ainda existia muito preconceito e “circos dos horrores” palpitavam em turnê pelo interior do país. Nada de acessibilidade, fisioterapia ou grupos de apoio a amputados: a única perspectiva de Blizzard era passar a vida trancado em casa.

Blizzard's reaction, becoming part of the underworld to seek revenge against Doctor Ferris and society as a whole, may even seem exaggerated but, looked closely, it is not. I believe that people who have to cut off a body part suffer a lot until they return to “normal life”. But Blizzard, besides losing his two legs, still hears the doctors saying that the double amputation wasn't necessary, in a scene that already adds emotion in the beginning of the film. And we must remember that these are the 1920s, a time when there was still a lot of prejudice and “freak shows” were on tour through the country. No accessibility, physical therapy or support groups for amputees: Blizzard's fate would be spending his life locked at home.
O filme surpreende a cada minuto. Por si só, o fato de haver tantos personagens em uma produção de 1920 é de se espantar, e o roteiro impede a confusão ao deixar cada personagem restrito a um ou dois ambientes. A mente de Blizzard, por sua vez, precisaria de um filme próprio para ser analisada. Uma de suas atividades favoritas é tocar piano, e para isso ele precisa de uma das funcionárias da manufatura para apertar os pedais. Ele é louco por música, e não será o último vilão do cinema com essa característica. E seu plano de dominação é incrível. Para não estragar a surpresa, digo apenas que envolve passagens secretas, um laboratório, bombas e desordem total. A sequência em que Blizzard explica seu plano, aliás, é detalhada e bem longa.

The film surprises us every single minute. The fact alone that there are so many characters in a 1920 production is surprising, and the script avoids confusion because each character is restrict to one or two scenarios. Blizzard's mind, on the other hand, would need a whole film to be studied. One of his favorite activities is to play the piano, and to do it he needs one of his employees to press the pedals. He loves music, and wouldn't be the last villain in film history with such a passion. And his domination plan is amazing. Without spoiling anything, I'll only mention that it has secret passages, a lab, bombs and chaos. The sequence in which Blizzard explains his plan is very detailed... and long.
Foi com “The Penalty” que Lon ganhou prestígio no meio cinematográfico e se consolidou como um camaleão das telas. O homem que mais tarde seria o fantasma da ópera (e olhe que em “The Penalty” o personagem faz uma curiosa menção a queimaduras com ácido...) deu frescor a um filme que se mostra produto de sua época, mas que envelheceu bem graças a Lon Chaney.

It was with “The Penalty” that Lon earned prestige in Hollywood and consolidated his image as a chameleon of the screen. The man who later played the phantom of the opera (and take a note that in “The Penalty” his character mentions acid burnings...) gave life to a movie that is a product of its time, but one that aged well thanks to Lon Chaney.

"The Penalty" pode ser assistido no YouTube ou no Internet Archive.

"The Penalty" can be watched on YouTube or Internet Archive.

This is my contribution to the Chaney Blogathon, hosted by Fritzi at Movies,Silently and Jo at The Last Drive-In. A weekend of 1000 faces!


sábado, 9 de novembro de 2013

Hank Worden: o pobre coitado da cadeira de balanço

Alguns atores e atrizes existem apenas para roubar a cena e um lugar em nossos corações. Eles não foram protagonistas ou indicados ao Oscar e seus nomes sequer figuram acima do título. Os filmes de John Ford estão cheios de exemplos deste tipo, pois o diretor contava com uma trupe poderosa de coadjuvantes, que incluía Harry Carey, Harry Carey Jr e a bela do cinema mudo Mae Marsh. Não importava se John Wayne estava atirando, bebendo em um saloon ou brigando com Maureen O’Hara em primeiro plano, esses coadjuvantes estavam lá para garantir comicidade. Hank Worden foi um deles. 
Norton Earl Worden nasceu em 23 de julho de 1901. Embora tenha estudado engenharia, ele se tornou um cowboy, tendo crescido nos ranchos de Montana. Foi montando em touros e cavalos que ele entrou no show business ao lado de Tex Ritter, que logo se tornou um famoso ator e cantor de música country. Hank continuou em Nova York dirigindo um táxi, mas foi junto aos cowboys que ele encontrou sua grande chance: conheceu Billie Burke (a Glinda de “O Mágico de Oz”) em um rancho e ela o ajudou a chegar em Hollywood. Quando a popularidade de Tex Ritter começava a cair no cinema, Hank começava a despontar.

Era 1952 e Howard Hawks dirigiu um filme que só pode ser chamado de western porque há índios. Kirk Douglas e Dewey Martin precisam levar um carregamento de madeira rio acima em “O Rio da Aventura / The Big Sky” e uma das pessoas que eles terão na equipe será o índio Pobre Coitado (Poordevil), sem dúvida a figura mais divertida do filme.
Desde 1939 Hank participava dos filmes de John Ford. Ele esteve em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, sem receber créditos, como extra. Mas seria em “Rastros de Ódio / The Searchers” (1956), considerada a obra-prima de John Ford, que ele brilharia. Mose Harper existe apenas para nos fazer rir. Fosse ele um bobo da corte ou coisa do gênero, o importante é que ele está ali para desviar a atenção do fato de que John Wayne está em uma missão homicida, guiado pelo ódio. E a única ambição de Mose é ter uma cadeira de balanço, algo tão simples em contrapartida à jornada de Wayne, tão complexa, destrutiva e que, quando terminada, não lhe dará conforto.  
Mas Hank era um homem ocupado: devido ao conflito de horários entre dois filmes, algumas cenas em que seu personagem aparece de costas em “Rastros de Ódio” tiveram de ser filmadas com um dublê. Além disso, Mose foi inspirado em uma figura real, Mad Mose, um famoso pistoleiro que era meio louco e adorava cadeiras de balanço!
Mais um filme de John Ford, mais um momento para Hank brilhar, ainda que rapidamente: “Quando um homem é homem / McLintock!” (1963), que eu considero o filme mais divertido do diretor. O nome de personagem de Hank é, ironicamente, Curly (o termo em inglês significa “cacheado”, e Hank é careca. Ele apaarece logo no começo, e também tem destaque no banho de lama que é o ponto alto da loucura do filme.
Embora ele tenha começado no cinema em meados dos anos 30, com o nome Heber Snow, que ele considerava “mais mórmon”, Hank fez trabalhos como extra esporadicamente, mesmo após conseguir certa popularidade e cair nas graças de Ford e Hawks. Só com Ford, foram 12 colaborações, entre filmes e televisão. Entretanto, seu grande amigo no meio cinematográfico era John Wayne, com quem fez 17 filmes e que, segundo Hank, foi a pessoa que lhe ensinara tudo o que ele sabia.
Hank, à esquerda, em "Forte Apache" (1948)
Em seus 216 trabalhos como ator, Hank foi creditado relativamente poucas vezes. Mesmo assim, sua imagem é inconfundível. Prestando bastante atenção, é possível encontrá-lo em “A Legião Branca / So Proudly We Hail” (1944), “Duelo ao Sol / Duel in the Sun” (1946), “Céu Amarelo” (1949), “Vendedor de Ilusões / The Music Man” (1962) e “Bravura Indômita / True Grit” (1969). Além de Mose no mais famoso western de John Ford, Hank se destacou também como o garçom da série Twin Peaks, seu último trabalho. Sempre inconfundível, Hank Worden ganhou popularidade, e é realmente uma alegria vê-lo em ação.


This is my contribution for the What a Character! Blogathon 2o13, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.


Thank ya, thank ya kindly for reading!
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