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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vocês ainda não ouviram (nem leram) nada

Bazinga! Ainda não é uma notícia sobre mais um de meus livos!

Se há livros que viraram filme, há também o caminho contrário: livros sobre cinema, a alegria de qualquer cinéfilo que é também rato de biblioteca. Minha mais recente incursão nesse tipo de literatura se deu com “Vocês ainda não ouviram nada – A barulhenta história do cinema mudo”, de Celso Sabadin.

Alguns pontos bem interessantes do livro dizem respeito exatamente aos assuntos menos conhecidos, como, por exemplo, os outros pioneiros do cinema, além dos irmãos Lumière, Thomas Edison e Georges Méliès; aqueles que tentaram desenvolver, com mais ou menos sucesso, máquinas que colocassem imagens em movimento. A formação dos estúdios, incluindo não só os mais conhecidos, mas também os já extintos e os internacionais, é bastante completa e bem detalhada. A animação, às vezes negligenciada, também surgiu durante a era muda, para espanto dos leigos e deleite dos leitores. A produção muda europeia e até mesmo a brasileira têm capítulos próprios, o que é ideal para que se conheça um assunto tão menosprezado, se comparado a Hollywood.
Cena de "Cabiria", filme italiano de 1914
Em muitas ocasiões erros de digitação e de concordância saltam aos olhos. Não posso reclamar disso, porque este blog já sofreu deste mal algumas vezes. Confesso que é mais fácil caçar erros no papel que na tela, ainda mais para uma leitora minuciosa como eu. No entanto, tenho o direito de reclamar de erros factuais. Mesmo uma pessoa nem tão versada no cinema mudo, porém não totalmente leiga, pode apontar os erros. Talvez um especialista encontre mais alguns. Por exemplo, na página 85, há não um, mas dois erros sobre as irmãs Gish. Está escrito que o primeiro filme delas, An Uneasy Enemy, foi feito em 1912, quando Lillian tinha 16 e Dorothy, 14 anos. De fato, as irmãs estrearam no cinema em 1912, mas o filme se chama “An Unseen Enemy”, e na ocasião Lillian Gish tinha 19 anos. Um erro que é repetido por duas vezes diz respeito à cinebiografia de Charles Chaplin, feita em 1992. Enquanto o autor insiste que ela se chamou Charlie, na verdade o título é “Chaplin”. Também relativo ao ator, na página 139 seu filme “Shoulder Arms” (1918) vem com a tradução literal “Ombro Armas”, em alusão ao comando do exército. No entanto, o título no Brasil é “Carlitos nas Trincheiras”. Senti falta de alguns nomes importantíssimos, como Mabel Normand, ao mesmo tempo em que alguns pontos foram citados mais de uma vez. Nem parece que o publicitário transformado em crítico Celso Sabadin tenha demorado cinco anos pra escrever o livro. Considerando apenas esta sua obra, eu não frequentaria nem recomendaria algum de seus cursos sobre cinema mudo, também porque a maioria das informações importantes está disponível na Internet, inclusive centenas de filmes sobreviventes do período. Sei que a primeira edição do livro saiu em 1999, mas o IMDb, a Bíblia dos cinéfilos, existe desde 1990 cheio de informações impecáveis.     
Em "O Cantor de Jazz", Al Jolson profere a frase
"vocês ainda não ouviram nada"
Segundo a Wikipedia, o livro está em sua terceira edição, publicada pela Summus Editora. Li a segunda edição, que saiu pela Lemos Editorial, e tem, sugestivamente, uma imagem de Douglas Fairbanks com um enorme megafone na capa. Espero que a nova edição tenha corrigido os vários erros. Tirando isso, o livro traz boas informações e aumenta a lista dos filmes a serem vistos.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Homem-Mosca / Safety Last! (1923)

Por maior que seja o número de filmes que um cinéfilo veja, sempre haverá algo por descobrir. No meu caso, uma das lacunas que faltavam é referente à obra do grande comediante do cinema mudo Harold Lloyd. Para descobri-lo, precisei do incentivo de Kate do Tumblr TheFilmWriter, uma grande fã do cinema silencioso, e também da Laura do blog Laura’s MiscellaneousMusings, que fez uma lista de 10 clássicos que ela verá pela primeira vez em 2013. “Safety Last!” é o primeiro da lista, e ela incentivou outros blogueiros a acompanhá-la nessa descoberta e depois escreverem o que acharam dessa empreitada.

No matter how many films a cinephile has seen, there is always something missing. In my case, what was missing was diving into Harold Lloyd’s body of work. To discover him, I needed the help from Kate at TheFilmWriter Tumblr, a great silent film fan, and also from Laura at the blog Laura’s Miscellaneous Musings, who made a list of 10 classics to see for the first time in 2013. “Safety Last!” is the first one in the list, and she has called other bloggers to go with her on this discovery journey and write down their thoughts.
Ah, se você ficou curioso ao ver “A invenção de Hugo Cabret” e quer saber por que aquele homem de chapéu estava pendurado em um relógio no filme que Hugo e Isabelle viam, aqui está a resposta.

Oh, and if you were curious when you saw “Hugo” and wants to know why that man was hanging from a clock in the movie Hugo and Isabelle were watching, here we have the answer.
De Harold Llloyd, tinha assistido apenas ao curta “Just Neighbors”, de 1919, que também tem no elenco Bebe Daniels. Por essa pequena experiência já pude perceber como Harold é inventivo e tem o dom de fazer rir.

From Harold Lloyd, I had only wacthed the short film “Just Neighbors”(1919), that also stars Bebe Daniels. Only with this short film I already could see that Harold in an inventive man who knows how to make us laugh.

Um garoto (Harold) vai para a cidade grande em busca de uma vida melhor e também de dinheiro suficiente para se casar com sua namorada (Mildred Davis). Desde o começo temos surpresas, pois a maneira como a estação de trem é filmada, junto com o texto dos intertítulos, nos dá a impressão de que o personagem está preso e pronto para ser enforcado. Cena muito semelhante abre o curta “O Enrascado”, feito um ano antes e estrelado por Buster Keaton. Em menos de vinte minutos de filme, Keaton tenta transportar uma mobília logo depois de ser dispensado pela filha do prefeito, e acaba virando alvo de uma perseguição. Nada muito criativo, ao contrário do filme de Lloyd.

A boy (Harold) goes to the big city to pursue a better life, and earn enough Money to marry his girlfriend (Mildred Davis). Since the beginning we have surprises, because the way the train station is filmed (plus the intertitles) makes us believe that the main character will be executed by hanging. A very similar scene opens the short film “Cops”, shot one year before and starred by Buster Keaton. In less than 20 minutes, Keaton tries to move furniture right after being dumped by the mayor’s daughter, and he is chased by cops. It’s not very creative, and the opposite of Lloyd’s movie.
O único trabalho que o garoto consegue é o de vendedor de tecidos em uma loja de departamento, ocupação cansativa e até perigosa, em especial nos dias de liquidação. No entanto, ele escreve para sua garota dizendo que está muito bem e ganhando muito dinheiro. Isso a incentiva a fazer-lhe uma visita surpresa. Tendo de se passar por gerente, ele enfrenta vários problemas, sempre arquitetando as mais criativas saídas. Quando ouve seu chefe dizer que daria mil dólares para quem tivesse uma ideia para atrair mais compradores para a loja, o garoto encontra sua grande oportunidade.

The only job the boy gets is as a clothes salesman in a department store, a tiring and sometimes dangerous occupation, especially when the store has big sales. However, he writes to his girl that he is doing fine and making a lot of money. This gives her the idea to surprise Harold at his job. He has to pretend he is the manager and face several problems, always imagining the most creative solutions for them. When he hears that his boss will give a thousand dollars to anyone who has an idea to attract customers, the boy sees his big opportunity.
A ideia é justamente escalar o prédio da loja sem nenhum equipamento de segurança, atraindo uma grande multidão de curiosos. Quem faria essa proeza seria o colega de quarto do garoto (Bill Strother), pois a ideia veio exatamente de uma escalada similar, em que o amigo literalmente subiu pelas paredes para fugir de um policial. Lloyd também teve a ideia não somente para a escalada, mas para todo o filme, ao ver Bill fazer tal ato enquanto dublê. Harold ficou escondido, com medo de que Strother caísse, mas ao vê-lo são e salvo, logo lhe propôs a parceria para o filme.

The Idea is to have someone climbing the store’s building without any safety equipment, attracting a crowd of curious people. Who would do this trick would be the boy’s roommate (Bill Strother), because the idea came from a similar climbing trick, when the friend climbed walls to escape the police. Lloyd also was inspired not only for the climbing, but to do the whole movie, when he saw Bill doing the trick as a double. Harold stayed far away, fearing that Strother would fall, but when he saw the double safe from the climbing, Harold told him the idea for the film.
Ora, se Harold fica pendurado no relógio é porque ele escalou o prédio! Na verdade, o policial volta a perseguir o amigo, restando a Lloyd a tarefa de cumprir com a promessa e atrair o público. Por muito tempo se especulou como a escalada foi filmada e muitos acreditaram que de fato Harold Lloyd desafiou a morte em frente às câmeras. Só depois de seu falecimento que os truques foram revelados: embora o ator tivesse feito ele mesmo a maior parte das cenas, em alguns momentos ele contou com a ajuda de um dublê, como quando o personagem fica sacudindo a perna para um rato sair de sua calça.

Well, if Harold ends up hanging from the clock, the reason is that he was the one who climbed the building! What happens is that a policeman once agains chases Strother, and Lloyd has to do the trick and attract the public. For a long time it was speculated how exactly the climbing was filmed, and many people believed that Harold Lloyd really defied death in front of the cameras. Only after his passing the truth was told: although Harold had done himself most of the scenes, in a few moments he had a double, like when his character shakes his leg to get rid of a mouse that entered his pants.
Para a famosa cena do relógio, tudo foi filmado com ângulos sensacionais que davam a impressão de altura. Mesmo sem grande perigo, Harold testou a resistência dos ponteiros com um boneco que se estatelou no chão. O próprio astro se dependurou, após os devidos acertos, e segurou os ponteiros com apenas oito dedos: em 1919, um acidente com uma bomba que deveria ser cenográfica decepou os dedos polegar e indicador da mão direita do ator e ele passou a usar luvas que dessem a impressão de uma mão perfeita nas telas. 

For the famous clock scene, everything was filmed with camera angles that faked height. Even without danger, Harold tested if the pointers could stand the weight of a doll. Guess what? They couldn’t. Harold himself was hanging from the clock, after changes were made, and holding them with only eight fingers: in 1919, an accident with a supposed cenographic bomb cut off two fingers from his right hand. From then on he had to wear gloves to disguise the effects of the accident.
O título se justifica pela sequência final. Embora o termo “homem-mosca” exista em outras línguas e possa ser traduzido como “human fly “para o inglês, significando alguém com a habilidade de escalar paredes, eu acredito que seria bem melhor o termo “homem-lagartixa”, réptil habilidoso que, além de subir pelas paredes, tem a capacidade de assustar minha avó. Saindo dessa reflexão, preciso ressaltar que Mildred Davis, estrela feminina do filme, casou-se com Lloyd ainda em 1923, abandonando o cinema e ficando ao lado do ator até que a morte os separasse, em 1969. Eles tiveram um casal de filhos e adotaram mais uma menina.

The title is justified by the final sequence. In Portuguese the film is called “the human fly” because of Harold’s ability to climb the walls, but I believe he could also be called “the human lizard” and the effect would be the same. Forgeting this, I’ve got to point out that Mildred Davis, the leading lady in this film, married Lloyd in 1923, left the movie business and lived with him until death did them apart, in 1969. They had two children, a boy and a girl, and adopted another girl.
E o que tudo isso, mostrado em apenas uma hora e treze minutos de filme representaram para alguém que vê um longa-metragem de Harold Lloyd pela primeira vez? Só posso dizer que, embora a escalada seja o clímax, todo o caminho construído para chegar lá é muito feliz, cheio de excelentes momentos cômicos para fazer qualquer um gargalhar. O que mais posso dizer? Três vivas para Harold Lloyd!   


All this was shown in only on hour and thirteen minutes. What did this represent to someone who sees a Harold Lloyd feature film for the first time? I can only say that, even though the climbing is the climax, all the way to arrive there is very good, full of wonderful comic moments to make anyone laugh. What else can I say? Hooray for Harold Lloyd!

“O Homem-Mosca” está disponível no YouTube. 

"Safety Last!" is available on YouTube.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Quem foi o melhor cantor do cinema?

Duas vozes potentes, dois intérpretes carismáticos que conquistaram o cinema, o rádio e a televisão. Ambos ganharam Oscars, fizeram muito sucesso, tiveram vidas pessoais dignas de interesse e, com algum esforço, é até possível reconhecer que os olhos azuis conferiam alguma semelhança física entre os dois. Frank Sinatra e Bing Crosby foram os maiores cantores que também invadiram as telas do cinema. Mas qual seria o melhor? 

Vida pessoal: Harry Lillis Crosby nasceu em 1903 e faleceu em 1977. Era o quarto de sete irmãos. Foi casado duas vezes e teve sete filhos. Enviuvou aos 49 anos e casou-se com a também cantora Kathryn Grant. Dois de seus filhos do primeiro casamento cometeram suicídio. Os outros dois morreram de causas mais naturais. Apenas os três do segundo casamento ainda estão vivos.
Um minuto de silêncio pelos frutos do primeiro casamento
Francis Albert Sinatra nasceu em 1915 e faleceu em 1998. Era filho único. Foi casado quatro vezes e teve três filhos, todos com a primeira esposa. Suas cônjuges incluem Ava Gardner e Mia Farrow. Todos os seus filhos continuam vivos.

Carreira: Bing começou no cinema em 1930 e nos anos seguintes fez uma série de curtas em que aparecia apenas cantando. Só em 1933 fez seu primeiro personagem que não se chamava Bing. Sua filmografia no IMDb conta 86 títulos.
Frank apareceu nas telas pela primeira vez em 1941, ao lado da “Tommy Dorsey Orchestra”. Só em 1944 fez um personagem que não se chamasse Frank. Sua filmografia é menor, com 63 títulos como ator.

Prêmios: Bing ganhou o Oscar de Melhor Ator em 1946, por “O Bom Pastor / Going my Way”. Foi escolhido o ator mais popular por cinco anos consecutivos. Assim como Sinatra, tem um Cecil B. DeMille Award e três estrelas na Calçada da Fama. Além de suas duas músicas mais famosas, outras duas canções que ele cantou ganharam o Oscar: “Sweet Leilani” e “In the cool, cool, cool of the evening”.
Frank ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1954, por “A um passo da eternidade / From here to eternity”. Três músicas cantadas por ele em filmes também ganharam o Oscar de Melhor Canção Original: “Three Coins in the Fountain”, “All the way” e “High Hopes”. Também foi vencedor de um Emmy, três Globos de Ouro e dezenas de outras honras.
Um programa para chamar de seu: “The Bing Crosby Show” teve uma temporada, contabilizando 27 episódios de meia hora. Ele contava a história de um casal com duas filhas adolescentes e um amigo que há tempos vivia na casa deles.

“The Frank Sinatra Show” surgiu primeiro em 1950, durando duas temporadas com episódios de 60 minutos em que esquetes e apresentações musicais eram mostrados. Em 1957, Frank fez uma nova tentativa em outra emissora. Também com 60 minutos de duração, essa nova série, com o mesmo nome, mesclava episódios dramáticos com episódios de variedades.
Greatest Hits: Bing é mais conhecido pela música de Natal “White Christmas”, que vendeu cerca de 100 milhões de cópias ao redor do mundo. Sua segunda música mais famosa talvez seja “Swinging on a Star”.
Frank é a voz que imortalizou “My Way”. Outra música fortemente relacionada a ele é “Strangers in the Night”.

Filantropia: A fama pode mexer com as pessoas de uma maneira boa. Bing começou seu trabalho filantrópico em 1937, com um campeonato de golfe cujos lucros seriam revertidos em ajuda para atletas. Sua caridade se estendeu para atletas universitários, escoteiros, bandeirantes e até a Cruz Vermelha. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou pesado para ajudar seu país.
A atividade favorita de Sinatra era ajudar crianças carentes, mas ao longo da carreira ele contribuiu com mais de um bilhão de dólares para a saúde, ciência e educação em diversos países. Também sempre ajudou amigos com problemas. Pagou anonimamente pelo funeral de Bela Lugosi, que estava falido.

Reconhecimento: Quando Bing se casou pela primeira vez, em 1930, sua esposa Dixie Lee era mais famosa que ele e uma manchete chegou a estampar: “Conhecida estrela da Fox se casa com Bing Covery”. Dezoito anos depois, ele foi escolhido o homem mais admirado do mundo. Durante a carreira, seus filmes venderam mais de um bilhão de ingressos e Bing fez cerca de quatro mil apresentações no rádio.
Sorvete do Bing
Se as adolescentes da década de 1960 viveram a Beatlemania, as da década de 1940 tiveram a Sinatramania. Embora seu sucesso tenha caído um pouco ao final dos anos 40, Frank é um dos mais conhecidos showmen do século XX. Apelidado simplesmente de “A Voz”, também era pintor e inclusive foi responsável pela capa de um de seus álbuns. Inspirou uma série de produtos, inclusive uma boneca Barbie. 
Os encontros: Bing e Frank fizeram juntos o divertido filme “Robin Hood de Chicago / Robin and the Seven Hoods” (1964), um musical que satirizava os filmes de gângsteres, já fora de moda na época. Oito anos antes, eles disputaram o amor de Grace Kelly em “Alta Sociedade”. Também apareceram juntos na TV e gravaram um disco de Natal.

Apesar da suposta rivalidade que foi criada pela mídia envolvendo os dois artistas, Frank e Bing eram bons amigos. Em 1943, quando Sinatra estava começando, Bing enviou-lhe uma carta com vários conselhos (o conteúdo, em ingês, pode ser lido aqui), e anos depois disse: “Frank é um desses cantores que aparecem uma vez na vida. Mas por que tinha que ser justo durante a minha vida?”. 
Qual deles é seu favorito? Ou seria seu cantor de cinema preferido Maurice Chevalier? Yves Montand? Howard Keel? Mario Lanza? Carlos Gardel? Al Jolson?...
This post is part of the “Best of the best Blogathon”, hosted by A Potpourri of Vestiges.
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Amores de Estudante / College (1927)

No ano em que o cinema falado nascia, Buster Keaton foi para a faculdade. Isso não quer dizer que o ator de 32 anos desejava obter um diploma universitário porque já sabia que o som iria causar danos ao cinema mudo, mas sim que o enredo de mais uma de suas comédias brilhantes se passa em uma universidade.
O jovem Ronald (Keaton) está saindo do Ensino Médio e não escapa de passar vergonha nem na formatura. Após ter um problema com seu guarda-chuva, ele fica perto de um aquecedor e sua roupa encolhe, atrapalhando seu adorável discurso nerd, com o qual eu concordo, sobre como os livros são mais importantes que os esportes. Ao virar motivo de piada de todos, inclusive de Mary (Anne Cornwall), garota por quem ele está apaixonado, Ronald decide mudar seus planos. Ele vai para a mesma faculdade de Mary, trabalha para pagar os estudos e tenta virar atleta. Tudo sem sucesso, mas com muito humor.
Ronald não tem nenhuma habilidade que não seja intelectual. Muitas vezes sua inteligência e êxito nos estudos são citados, mas isso não faz com que ele fique mais de um dia em um emprego. No primeiro, como balconista de um bar, ele se atrapalha ao fazer malabarismos para preparar um refresco, e ainda tenta impressionar Mary, sem deixá-la saber que ele é funcionário do local. O outro emprego é como garçom num restaurante onde só trabalham negros. Para conseguir ser contratado, ele pinta o rosto e as mãos e, obviamente, essa sua estratégia não vai dar certo durante muito tempo.
Nos esportes Ronald também é um desastre. Ele tenta de tudo dentro da universidade: futebol americano, beisebol, corrida, lançamento de dardo e de disco, salto em altura e com vara. Surpreendo-me por eu própria saber os nomes de todos esses esportes e ser capaz de identificá-los na tela! Só quando Ronald conta sobre seus sentimentos para o “deão” (espécie de reitor) da universidade, interpretado pelo baixinho Snitz Edward, é que ele encontra, a conselho do próprio deão, um esporte perfeito: o remo.
Um “efeito especial” muito interessante é o slow motion presente na cena em que Buster é jogado para cima por seus colegas de faculdade e, em posse de um guarda-chuva, demora a cair. Enquanto está no ar, ele observa uma senhora gorda, de camisola, pela janela.
Sigo o estereótipo de que nerds não são bons em esportes. Educação física sempre foi, para mim, uma bobagem, uma chatice e uma tortura. Por isso me identifiquei em parte com a personagem de Keaton neste filme. Com certeza defendo os livros ao invés de elogiar os esportes e felizmente nunca tive de virar esportista para impressionar alguém. Isso, inclusive, me lembra do episódio da série The Big Bang theory, “The Rothman Desintegration”, em que, quando os físicos Sheldon (Jim Parsons) e Kripke (John Ross Bowie) são perguntados em que atividade eles são igualmente ruins, ambos respodem “esportes”.
Além do próprio Keaton, outro nome que me chamou a atenção nos créditos foi o de Florence Turner, a “Vitagraph Girl”. Logo que os estúdios de cinema nasceram, seus donos não creditavam os astros do filme, mas os ligavam a cada estúdio. Assim surgiu a primeiríssima estrela, a “Biograph Girl”, cujo nome verdadeiro era Florence Lawrence. Turner foi a resposta da Vitagraph e teve uma carreira interessante no cinema mudo, inclusive produzindo e escrevendo alguns curtas. Aqui, um de seus últimos trabalhos, ela aparece por pouco tempo como a mãe zelosa de Ronald. Curiosamente, Florence era apenas 10 anos mais velha que Buster Keaton.
Anos mais tarde, Keaton confessaria duas coisas sobre esta produção: James W. Horne, creditado como diretor juntamente com Buster, pouco esforço teve durante a realização da película. A segunda revelação foi que Buster usou um dublê para a cena, perto do final, em que ele salta com a vara para dentro de uma janela, em um dos raros momentos em que o comediante não fez ele mesmo uma de suas acrobacias perigosas.
Com intertítulos divertidos e um final curioso, “Amores de Estudantre” em muito se parece com “O Calouro / The Freshman”, filmado dois anos antes e protagonizado por Harol Lloyd. Feito como um veículo que agradasse ao público para compensar o fracasso do hoje cultuado “A General / The General”, o filme apostou na moda colegial da época, mas foi outro fracasso para Keaton. Neste penúltimo filme antes de “cometer o maior erro de sua vida” e ir para a MGM, Keaton mostra, mais do que nunca, seus dotes atléticos. E também como os nerds são legais desde 1920. 
“Amores de Estudante / College” está disponível no YouTube e no Internet Archive.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Desenho Retrô: A Turma da Gatolândia

Antes dos longa-metragens épicos, antes dos filmes de Hitchcock e Orson Welles, antes dos musicais, antes dos filmes mudos, eu assistia a desenhos antigos. Era por volta de 2003 e eu já tinha uma quedinha por tudo que era velho. E o canal Boomerang veio a calhar, pois exibia os desenhos animados clássicos da época da minha mãe, ou seja, da excelente safra Hanna-Barbera. E lembro com clareza que durante a semana, na faixa das duas horas, eu assistia com entusiasmo a uma singela produção com o simpático nome “A Turma da Gatolândia”. O que eu só fiquei sabendo agora é que no original o nome era “Cattanooga Cats”, ainda mais psicodélico.
Nem sei ao certo por que eu gostava da Turma da Gatolândia. Olhando com minhas opiniões atuais, creio que houve uma atração por todo aquele visual psicodélico dos anos 1960, que era o retrato de uma época. Devo acrescentar, claro, a parte lúdica, porque um desenho divertido atrai toda criança e eu, apesar de ter uma inclinação pelo passado, sempre gostei de me divertir.  
Antes da Turma da Gatolândia os talentosos William Hanna e Joseph Barbera já haviam se aventurado com um grupo de animais cantores: a banda Banana Splits, composta por um beagle, um gorila, um leão e um elefante mudo (?!). Quatro pobres atores tinham de se fantasiar para dar vida a esse estranho conjunto. Um ano depois da criação dos Banana Splits, Hanna e Barbera criaram a banda de gatos, desta vez composta apenas por personagens de desenho animado.
Os episódios de uma hora de duração apresentavam várias atrações. Obviamente, a principal era a aventura dos gatos Country, Conceição (Kitty Jo no original), Groove, Figura (originalmente Scoots) e de Fanzoca (Chessie nos EUA), uma ávida caçadora de autógrafos. Apesar de eles serem as estrelas do show, apenas nove histórias foram produzidas com a turma. O resto da hora era preenchido por outros desenhos, como “É o Lobo / It’s the Wolf”, que ganhou série própria com 22 episódios de meia hora. O Lobo Bobo, aliás, se mostrou a personagem mais carismática da série, uma vez que sobreviveu mais seis anos em outra série animada, “Ho-Ho Límpicos / Laff-a-Lympics”. E sim, eu acompanhei todos esses desenhos.
Além do lobo, havia também o desenho “Juca Bala e Zé Bolha / Motormouse and Autocat”, respectivamente um gato e um rato que levavam as perseguições de Tom & Jerry à modernidade, uma vez que o gato, de carro, perseguia o rato, de moto. A Turma da Gatolândia ficava completa com “A volta ao mundo em 79 dias”, paródia do livro de Júlio Verne. No entanto, o ponto alto do show era o clipe da Turma da Gatolândia, com direito a efeitos psicodélicos e músicas originais com o ritmo do momento.

A Turma da Gatolândia, infelizmente, não fez sucesso na televisão e ficou no ar por apenas duas temporadas. Nem o disco oriundo do programa, com as animadas músicas felinas, conseguiu salvar a Turma da Gatolândia. Mesmo assim, o show foi reprisado várias vezes em diversos países e hoje é um desenho cult relembrado com nostalgia por seus fãs.
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