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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Eles e Elas / Guys and Dolls (1955)

Com mil dólares, Nathan Detroit (Frank Sinatra) pode resolver todos os seus problemas, que envolvem dívidas, jogos ilegais e um noivado que já dura 14 anos. Ele vê sua grande oportunidade de conseguir o dinheiro na figura de Sky Masterson (Marlon Brando), um homem que adora fazer apostas. Maliciosamente, Nathan induz Sam a uma nova aposta: se Sky conseguir levar a missionária Sarah (Jean Simmons) para um jantar em Havana, Nathan lhe dará mil dólares. Caso contrário, Sky deverá mil dólares a Nathan.
Nathan acredita que Sky tem uma missão impossível pela frente, e portanto a aposta já está ganha. Mas Sky não desistirá com facilidade, apesar de Sarah se mostrar pouco interessada. É a possibilidade de salvar a “alma alcoólatra” de Sky que atrai Sarah: para ela Sky representa apenas negócios missionários. Para Sky, Sarah representa apenas mais uma aposta. Mas por quanto tempo eles se verão desta forma?
O nome de Sinatra é apenas o terceiro a aparecer nos créditos, depois de Brando e Simmons. Frank queria o papel principal, de Sky Masterson, e ficou muito chateado com a escolha de Marlon Brando, com quem nunca se deu bem durante as gravações. Contra a popularidade não se podia lutar: Sinatra era uma estrela mas Brando era uma super-estrela. O auge de Sinatra parecia já ter acabado, apesar de seu ressurgimento com “A Um Passo da Eternidade / From Here com Eternity”(1953), que lhe rendeu um Oscar.
Amigos?
O papel de Sky era para ser de Gene Kelly, mas a MGM não aceitou “emprestar” o ator-cantor-dançarino para o produtor Samuel Goldwyn. Outros atores considerados para interpretar Sky foram Kirk Douglas, Robert Mitchum, Burt Lancaster, Bing Crosby e Clark Gable (que queria muito o papel, caso a Paramount comprasse os direitos da peça, o que não aconteceu). Robert Alda originou o papel na Broadway, e ganhou um Tony por sua performance.
Para a noiva de Nathan, Adelaide, o diretor Joseph L. Mankiewicz vetou Marilyn Monroe. Goldwyn recusou Betty Grable. Judy Holiday foi cogitada, mas a ideia foi abandonada. A solução foi voltar às origens e chamar a atriz que interpretava Adelaide nos palcos, Vivian Blaine. O papel da missionária Sarah foi recusado por Grace Kelly e Deborah Kerr, e Jean Simmons foi a escolhida.
As canções não favorecem a voz de Sinatra. Perfeito para as big bands, o cantor de olhos azuis tem músicas pouco memoráveis no filme (a melhor delas é “The Oldest Established Permanent Floating Crap Game in New York”). Enquanto isso, somos obrigados a ouvir Marlon Brando cantando “Luck Be a Lady" (porque é ele mesmo cantando, sem dublagem), canção que se tornou icônica ao ser regravada por... Frank Sinatra. Compare as duas versões:

“Guys and Dolls” teve sua origem na Broadway, e infelizmente não se adaptou bem ao cinema. A própria sequência de dança inicial funcionaria apenas no palco, e fica esquisita na tela, até por ser coreografada pelo teatral Michael Kidd. A duração do filme também o compromete: duas horas e meia de projeção, com uma história muito simples e previsível a ser contada.
“Guys and Dolls” lembra muito outro musical longo sobre religião e ilegalidade protagonizado por Frank Sinatra: “Robin Hood de Chicago / Robin and the Seven Hoods” (1964) que, apesar de menos conhecido, é bem melhor que “Guys and Dolls”. Agora no papel principal, Frank interpreta Robbo, um gângster envolvido em várias atividades ilegais, incluindo o jogo de dados e a venda de bebidas alcoólicas. Em uma cena divertidíssima, Robbo e sua gangue transformam o cassino/bar em um local de pregação e oração para despistar os policiais, e Bing Crosby canta em seu testemunho sobre os perigos do “Mr Booze”. Sim, Bing Crosby, porque o Rat Pack todo está no filme: Peter Lawford, Sammy Davis Jr e Dean Martin (que, entre nós, seria um Sky Masterson bem mais convincente que Brando).
Bem melhor
“Guys and Dolls” não chega a ser um filme ruim. É leve, despretensioso, descompromissado, como um sonho. Deve funcionar melhor na tela grande, e melhor ainda nos palcos. Veja “Guys and Dolls” sem esperar muito. E depois corra e aprecie “Robin and the 7 Hoods”.

This is my contribution to the Sinatra Centennial Blogathon, hosted by Movie Classics and The Vintage Cameo.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday (1953)

Se você gosta de filmes antigos, já deve ter passado por esta situação: na ânsia de compartilhar sua paixão com as pessoas ao seu redor, recebeu como resposta uma careta e a recusa veemente de parar para ver um filme “velho”, em preto e branco. Este preconceito com o cinema clássico é infundado e frustrante, porque quem não dá uma chance para um filme “pré-histórico” está dando as costas para um mundo maravilhoso. Então, como você, evangelizador do cinema clássico, poderia trazer mais adeptos para o modo de vida Old Hollywood? Por onde começar?

Deixe-me contar um segredo: o amor pelo cinema não é genético. Embora meu bisavô tenha sido gerente de cinema, meu avô não perca um filme de John Wayne e minha avó seja fissurada por Bruce Willis e CinemaScope (não nesta ordem), o gene cinéfilo pulou uma geração. Minha mãe é uma pessoa totalmente normal, que não gosta de filmes em preto e branco. Mas ela é uma boa mãe, e por isso foi com um misto de surpresa e alegria que eu reagi quando ela aceitou assistir a “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” comigo. 
A princesa Ann (Audrey Hepburn) está entediada com os muitos compromissos oficiais e burocráticos de sua visita a Roma. Ela quer mesmo é se divertir, e para isso foge no meio da noite, logo encontrando o repórter Joe Bradley (Gregory Peck). A princípio, Joe não a reconhece, até que seu colega fotógrafo Irving (Eddie Albert) mostra uma foto da princesa, e é aí que começa a aventura, e também o dilema moral: Joe deve aproveitar a companhia da princesa disfarçada para conseguir um grande furo de reportagem? 

A princesa Ann se assemelha muito mais à Audrey da vida real do que a mais famosa personagem da atriz, a acompanhante de luxo Holly Golightly de “Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffany’s”, de 1961. Ann é doce e aventureira, cheia de classe e divertida, bondosa e determinada, delicada e moleca. E é com adjetivos tão diferentes que podemos descrever Audrey Kathleen Ruston, a menina que nasceu na Bélgica, passou fome durante a Segunda Guerra Mundial, virou bailarina e atriz de teatro, brilhou em Hollywood e tornou-se embaixatriz da UNICEF.

Há muito mais no filme do que suspeita nossa vã filosofia: encapsulado no roteiro está uma das histórias mais importantes e indignantes de Hollywood: a do roteirista Dalton Trumbo. Em 1947, Trumbo foi acusado de ser comunista e, apesar de continuar contribuindo com bons roteiros para o cinema, não podia ser creditado. Ele então usava pseudônimos ou deixava que algum de seus amigos recebesse crédito pelo seu trabalho. O roteiro de “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” foi assinado por Ian MacLellan Hunter, e recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original (veja no vídeo abaixo). Em 1993, a viúva de Trumbo finalmente recebeu a estatueta que lhe era devida. Dez anos depois o nome de Trumbo foi adicionado aos créditos. E apenas em 2011 o Sindicato dos Roteiristas devolveu o crédito a Trumbo, após um apelo que o filho dele, o também roteirista Christopher Trumbo, fez antes de morrer.

Filmado totalmente em locação, “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” se torna um perfeito roteiro para férias em Roma, com destaque para todos os pontos turísticos importantes. Afinal, quem, depois de ver todas as maravilhas na tela, não quis ir ver pessoalmente os cafés italianos, as escadarias, as fontes e a carranca esculpida na pedra? Até a Via Margutta 51, endereço de Joe Bradley, realmente existe em Roma. Curiosamente, o filme foi feito em preto e branco não apenas para diminuir os custos, mas também para impedir que a bela paisagem italiana chamasse mais atenção que a história em si. Esta foi a primeira produção de Hollywood filmada totalmente em Roma.

Confissão: já imitei esta cena com o canudo
Como é possível apreciar um filme em preto e branco? Acredito que o grande trunfo do bom cinema é contar uma história tão boa que você esquece que está vendo um filme em preto e branco – a fotografia “bicromática” se torna apenas um detalhe de algo muito maior e mais significativo. Filme algum deve ter sua qualidade julgada pela presença ou ausência de cores. “Casablanca” e “Cidadão Kane” não seriam melhores se fossem coloridos, e “E o Vento Levou... / Gone With the Wind” não seria pior se fosse filmado em preto e branco.

E quanto à minha mãe, você se perguntam? Ela gostou do filme! Depois da sessão, ela destacou a beleza de Gregory e Audrey (sem contar que as roupas e o penteado da princesa são moderníssimos) e a despretensão do filme. Sem querer passar uma mensagem, o filme conquista o espectador. Sem ter de apelar para vulgaridades ou humor baixo, “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” dá a quem não está acostumado com os clássicos uma introdução sobre tempos mais simples – quando era possível sair do cinema com um sorriso no rosto e a alma mais leve.

This is my contribution to the “Try It, You'll Like It!” Blogathon, hosted by classic film ambassadors Fritzi at Movies, Silently and Janet at Sister Celluloid. Alert: classic film viewing may cause addiction.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

250 tons de Wilson Grey

“Sem Wilson Grey, eu acho que nem existiria cinema brasileiro” - José Lewgoy

No cinema brasileiro, Wilson Grey está por toda parte. Ele é inconfundível: muito magro, cabelos pretos com brilhantina, cara chupada e quase sempre um bigode. Era o tipo perfeito para interpretar vilões ou capangas, malandros e mendigos. Ele costumava dizer que fazia de tudo no cinema, “menos beijar a mocinha no final”. Wilson Grey é a prova de que não é preciso ser protagonista para ser memorável – e deixar sua marca para sempre na história do cinema.
Wilson Chaves nasceu no Rio de Janeiro em 1923. Quando criança, ele gostava de imitar as vozes dos atores do rádio, mas uma tragédia interrompeu a infância feliz: seu pai faleceu quando Wilson tinha nove anos, e o menino teve de trabalhar para ajudar nas despesas da família. Um começo difícil, como muitos outros.
O Rei do Movimento (1954)
Seu sobrenome artístico foi inspirado em Nan Grey, companheira do teatro por quem Wilson era apaixonado na década de 40. Durante seis anos, ele tentou ingressar no cinema, sem sucesso (diziam que Wilson era muito feio para ser ator de cinema). Mas como na maioria das grandes histórias dos astros da sétima arte, um papel como extra foi o suficiente para engrenar a carreira de Grey, em 1948. Três anos depois abandonou o emprego em uma perfumaria para se dedicar de corpo e alma ao cinema. Seus dias de intérprete do “soldado sem fala” em Hamlet no teatro tinham terminado.
Amei um Bicheiro (1952)
A primeira vez em que vi Wilson Grey foi também a primeira vez em que vi uma “chanchada”, filme típico do Brasil da década de 1950, que misturava comédia e musical, geralmente com muito samba. Em “Quem roubou meu samba?” (1959), Wilson Grey rouba a cena interpretando o doente do leito 34, internado em um hospital, mas com muita fome.
O jornal Última Hora e a revista Jornal de Cinema realizaram um concurso para eleger o mais importante ator coadjuvante do cinema brasileiro em 1969. Adivinhe quem ganhou? Sim, Wilson Grey.
Na Corda Bamba (1958)
Os colegas de trabalho, atores e diretores, definiam Wilson Grey como um homem bem-humorado que usava toda sua experiência de vida para compor seus personagens – mesmo que fosse gravar uma só cena por filme. O diretor Hugo Carvana confessou que escrevia seus filmes já reservando um papel especialmente para Wilson Grey.
Apesar de pouco lembrado, Wilson Grey trabalhou com todos os grandes nomes do cinema brasileiro do século XX: Ankito, Grande Otelo, Costinha, Carlos Manga, Júlio Bressane. Só lhe escapou Glauber Rocha. Ou será que foi Wilson que escapou de Glauber? Em todo caso, pior para Glauber.
A Rainha Diaba (1974)
Além do teatro e do cinema, Wilson Grey também fez televisão. Seus papéis mais conhecidos foram como o Jeca Tatu na versão do Sítio do Pica-pau Amarelo de 1977 e como Linguiça, companheiro do vigarista Azambuja, interpretado por Chico Anysio.
Wilson Grey viveu apenas 69 anos, mas foi o suficiente para participar em 250 filmes ao longo de 45 anos de carreira. O diretor Ivan Cardoso chamava-o de “Boris Karloff do Brasil”, tão vasta era sua filmografia (Karloff já havia feito 80 filmes antes de se tornar estrela do terror em “Frankenstein”, de 1931). Na década de 1970, tempos antes de ser criado o website-referência IMDb, havia uma disputa em relação ao ator que fez mais filmes. John Wayne liderava a lista, já tendo feito aquele que seria seu último filme, “O Último Pistoleiro / The Shootist” (1976). Wilson Grey vinha logo em seguida. Ao ver um grupo de estudantes universitários de cinema filmando um curta-metragem, Grey se infiltrou na multidão. A cena mostrava os espectadores de uma corrida de cavalo. Os estudantes reconheceram Wilson Grey, como ele imaginava, e o focalizaram. Grey improvisou uma comemoração, como se seu cavalo tivesse ganhado a corrida. Terminada a cena, Grey comemorou: tinha agora 251 créditos, contra 250 de John Wayne. Wilson Grey entrou no Guinness Book. Hoje, o IMDb nos dá números diferentes, mas mantém a vantagem de Wilson: 179 créditos para John Wayne, e 197 para Wilson Grey.
Os Três Cangaceiros (1959)
Assim como muitos artistas, Wilson Grey morreu pobre, em 1993. Foi homenageado por ocasião do décimo aniversário da sua morte durante um festival de cinema em 2003 no Rio de Janeiro. Teve uma história de superação e de muitos sucessos. Versátil, dedicado e apaixonado pela profissão, Wilson Grey se tornou o mais inesquecível ator do cinema brasileiro.

This is my contribution to the 4th What a Character! Blogathon, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Pai e Filha / Late Spring (1949)

Meu primeiro contato com o cinema de Yasujirô Ozu foi através do livro “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, que uma amiga me emprestou. Logo antes de me entregar o livro, ela me alertou sobre a complexidade dele e me pediu para que eu lhe dissesse minha opinião quando eu terminasse. O desafio estava lançado. Quem era Ozu, e como sua obra cinematográfica poderia dialogar com uma obra literária? Estava na hora de descobrir mais um mestre do cinema japonês.

Ao contrário de Kurosawa, não encontramos aqui imagens de um Japão antigo, com histórias heróicas e predominantemente masculinas. O cinema de Ozu é o cinema do Japão moderno, com mulheres ao mesmo tempo sorridentes e tímidas (este tipo de filme sobre as vidas dos japoneses modernos de classe média recebe o nome de shomingeki). É um cinema minimalista e tradicional. Ozu prefere lidar com as relações familiares e amorosas, que muitas vezes soam alienígenas para nós ocidentais.

Noriko (Setsuko Hara) vive com o pai Shukichi Somiya (Chishû Ryû), um professor viúvo. As amigas e familiares de Noriko acreditam que já está na hora de ela se casar, mas Noriko não quer deixar o pai sozinho. A situação parece estar prestes a mudar quando ela começa a sair com o assistente do pai, mas ele é um moço comprometido. Restará a solução óbvia para Noriko: um casamento arranjado. Mas será essa a opção de Noriko?

Pai e Filha / Late Spring” jamais passaria no teste de Bechdel. Sim, uma das protagonistas é uma mulher, mas o principal assunto das mulheres neste filme é a necessidade do casamento. O pai de Noriko chega a falar que ter um filho é muito melhor do que ter uma filha!


Numa visão feminista, hedonista, e talvez até mesmo egoísta, do mundo, outra fala de Shukichi chama a atenção: falando sobre um casamento arranjado, ele convence a filha de que a felicidade conjugal não será imediata – e talvez demore cinco ou dez anos até que o casal seja realmente feliz junto. Estamos em 2015, vivendo numa sociedade que prega o mindfulness (evolução óbvia do carpe diem). Ora, se devemos nos concentrar no momento presente e aproveitá-lo, como o pai dá à filha o conselho de aceitar um presente triste em troca de um futuro mais promissor? É um conflito de culturas e de gerações.

O Japão logo após a Segunda Guerra Mundial tem uma população com memórias frescas do conflito – e das dificuldades causadas por ele. Mas tem também um grande anúncio da Coca-Cola na estrada por onde Noriko passa de bicicleta. O filme foi feito durante a ocupação do Japão por tropas aliadas, o que significa que uma censura muito parecida com o Código Hays foi aplicada ao roteiro de Ozu. Houve alguma tentativa de ocidentalização do roteiro, pois os censores não gostaram dos temas de casamento arranjado e visita ao túmulo dos antepassados em Tóquio. Ozu foi mais firme e, além da Coca-Cola, o único vestígio mais ocidental no filme é a citação de Gary Cooper.

A música é digna de um filme ambientado na Era Medieval – ou talvez de um conto de fadas. As marcas registradas de Ozu estão todas lá: a câmera quase parada, a presença de momentos apenas com objetos em cena, sem atores, o brilho da atriz Setsuko Hara. Setsuko foi como a diva de Ozu. Kurosawa tinha Mifune. Yasujirô Ozu tinha Setsuko Hara, estrela do cinema japonês que passou dos papéis de heroína trágica para os de virginal criatura pelas mãos de Ozu.

A vida de Ozu não foi fácil, e boa parte dela aparece em “Pai e Filha / Late Spring”. Os papéis, entretanto, estão invertidos: Ozu viveu sempre com a mãe, e jamais se casou. Talvez seja Noriko seu alter-ego em certa medida. E, voltando a “A Elegância do Ouriço”, o que temos novamente é uma mulher de meia-idade, viúva, de vida ordinária e interesses extraordinários: um espelho de Shukichi Somiya!

Pai e Filha / Late Spring” foi minha porta de entrada para o fascinante cinema de Ozu. Apesar das diferenças culturais e do choque inicial quando conhecemos as tradições aparentemente tão arcaicas das famílias japonesas, o filme é tocante e muito bonito visualmente. E, o mais importante: mostra que há todo um mundo a ser descoberto quando nos abrimos para o maravilhoso cinema asiático.

This is my contribution to the Criterion Blogathon, hosted by Kristina at Speakeasy, Ruth at Silver Screenings and Aaron at Criterion Blues

domingo, 8 de novembro de 2015

O Pirata Negro (1926)

Johnny Depp, como o Capitão Jack Sparrow. Errol Flynn. Tyrone Power. Basil Rathbone. Capitão Gancho. E, antes de todos eles, Douglas Fairbanks. O espadachim original das telas modelou todos os seus sucessores: corajoso, atlético, bonito e muito dedicado à sua donzela favorita. Desde que se tornou uma superestrela, Fairbanks sonhava em levar para o alto-mar uma história de vingança, aventura e romance. E ele não poderia tê-lo feito de melhor maneira.
Durante os primeiros três minutos, você tem a apresentação básica do elenco e equipe, e algumas telas com escritos sobre a época em que piratas infestavam os mares – é, afinal, um filme mudo. Mas as primeiras imagens trazem consigo uma imensa surpresa: é um filme COLORIDO. E com cores mais belas e realistas que muitos filmes criados em computador que vemos por aí. É como se estivéssemos entrando em uma pintura - dos grandes mestres, é claro.
Os piratas sanguinários estão saqueando um navio, e pretendem não deixar testemunhas do crime. Depois que todos os passageiros são acorrentados, a pólvora do navio é espalhada e o fogo é aceso. Fugindo com pressa nos pequenos barcos de resgate, os piratas e as riquezas já estão longe quando o navio explode. Mas dois homens sobrevivem: Douglas Fairbanks, de túnica verde e braços musculosos, e o pai, já velho e fraco, que morre nos braços de Doug pouco depois de chegar à praia.
Doug promete vingar a morte do pai, e para sua sorte os piratas atracam na ilha para enterrar um tesouro. A estratégia para vencê-los é juntar-se a eles, e Doug mostra suas habilidades com a espada lutando contra o homem mais forte do bando. A próxima prova é sequestrar um navio mercante sozinho. Como ele consegue, sem a ajuda de nenhum outro homem? Porque ele é Douglas Fairbanks. E também porque ele é muito esperto.
No navio capturado estava a princesa Isobel (Billie Dove) e, para salvar a bela moça e também a pobre tripulação, Doug sugere que peçam um resgate pela princesa, o que é aceito por todos, em especial pelo chefe do bando, Mac Tavish (Donald Crisp, com um braço só). Quem não fica nem um pouco satisfeito com a história do resgate é o sempre invejoso Pirata Tenente (Sam De Grasse), que já havia ganhado a posse da princesa em um sorteio.
Douglas Fairbanks é, obviamente, a estrela do filme, e as melhores cenas envolvem suas múltiplas acrobacias e muita, muita habilidade corporal. Há também ótimos momentos com Donald Crisp, que se mostra um pirata divertido e de bom coração. Crisp era até então associado a papéis de vilões, como em “Lírio Partido / Broken Blossoms” (1919) e “O Filho do Zorro / Don Q Son of Zorro” (1925). Crisp também tinha uma carreira prolífica como diretor e, como já havia dirigido Fairbanks em “Don Q”, Crisp começou “O Pirata Negro” atrás das câmeras. Após um desentendimento com Fairbanks, Crisp foi substituído pelo diretor Albert Parker e ficou na película apenas como ator.
De Grasse, Crisp e Fairbanks
Desde o sucesso de “Zorro” (1920), Fairbanks já pensava em fazer um filme sobre piratas – mas tinha de ser em cores, e nem um pouco artificial. Ele esperou a tecnologia dos filmes totalmente coloridos ser testada em “The Toll of the Sea” (1922), “The Glorious Adventure” e “The Wanderer of the Wasteland” (ambos de 1924). Também escolheu os tons certos, de modo que a cor fosse um elemento complementar, e jamais se tornasse mais atrativa que o enredo. A história, aliás, foi escrita por Fairbanks (creditado sob o pseudônimo “Elton Thomas”).
Billie Dove tem como única função ser uma bela donzela em perigo. Ela cumpre bem este papel, mas não tem sequer a honra de beijar nosso herói no final: na cena do beijo apaixonado, que inclusive deixa cansado Donald Crisp, Fairbanks não está beijando Billie Dove, mas sim sua esposa Mary Pickford, vestida como a princesa Isobel!
Mary Pickford
Apesar de alguns problemas técnicos (eram necessárias duas películas coloridas, uma colada sobre a outra, para atingir os tons desejados, o que confundiu alguns projecionistas), “O Pirata Negro” foi um imenso sucesso de bilheteria. O retorno financeiro é digno de ser comemorado, mas o filme conseguiu algo muito mais importante: simples, belo e emocionante, mantém o espectador completamente envolvido com a trama. Nada mal para um filme com quase noventa anos, não?
O Pirata Negro” pode ser visto no YouTube (versão estendida de 94 minutos).
This is my contribution to the Swashaton - A blogathon of Swashbuckling Adventure, hosted by mighty Fritzi at Movies, Silently.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

César e Cleópatra (1945)

Você deve saber que Elizabeth Taylor foi a primeira atriz de cinema a receber um milhão de dólares por um único filme: “Cleópatra”, em 1963. Antes dela, outras atrizes já haviam interpretado a mais famosa rainha do Egito, entre elas Theda Bara, Claudette Colbert e Vivien Leigh. Apenas Leigh pôde viver Cleópatra com uma surpreendente dose de humor, e um estilo muito parecido com o de Scarlett O’Hara, sua mais famosa personagem. Embora seja o Júlio César interpretado por Claude Rains o grande herói da história, todos os olhares se voltam para a mais bela joia do Nilo quando ela surge na tela.
Cleópatra é mostrada como uma jovem divertida, ingênua e muitas vezes inconsequente. Ela é um produto da dominação de Júlio César. Ele a toma como pupila e lhe ensina a comandar um reino com firmeza. O primeiro encontro dos dois se dá aos pés de uma esfinge, e aqui a voz aguda da inexperiente Cleópatra já denuncia sua ingenuidade. César a convence a levá-lo ao palácio, sem dizer-lhe quem realmente é. Ele dá suas primeiras lições sobre como tratar os escravos e como ter confiança. Quando Cleópatra descobre quem é seu conselheiro, a empatia já está formada.
César agora está instalado dentro do palácio, e toma decisões sobre a própria política do Egito. Um impasse ocorria entre Cleópatra e seu irmão / esposo (porque os nobres egípcios se casavam com seus irmãos para manter a pureza do sangue, algo que surpreende os romanos). Ptolomeu (Anthony Harvey), fraco e despreparado para governar o Egito, logo estará fora da questão, apesar dos esforços de seu gordo tutor Pothinus (Francis L. Sullivan).
A trajetória da Cleópatra de Vivien Leigh curiosamente muito se assemelha à de Scarlett O'Hara. Ela inclusive conta com uma “babá” ao estilo de Mammy (Hattie McDaniel): a fiel e inconformada Ftatateeta (Flora Robson). Da menina mimada e ingênua à mulher forte e tirana, Vivien passeia com a mesma graça, seja ela Scarlett ou Cleópatra na tela. Linda e de olhar penetrante (em especial nos close-ups perto do final), ela reproduz com muito charme a cena histórica em que Cleópatra é dada de presente para César, enrolada em um grande tapete. Nesta cena também merece destaque o entregador do tapete, o siciliano Apollodorus (Stewart Granger), em um traje romano minúsculo.
A era de ouro dos épicos bíblicos e históricos só aconteceria na década seguinte, e talvez “César e Cleópatra” seria melhor se fosse feito dez anos depois. A verdade é que alguns elementos grandiosos das superproduções em Cinemascope ou de Cecil B. DeMille já estavam ali presentes, e é o cenário que se destaca, junto com a surpreendente e maravilhosa mímesis de um pôr do sol nas areias do deserto egípcio.
Se você prestou atenção aos créditos, viu o nome de George Bernard Shaw. O dramaturgo escreveu a peça “César e Cleópatra” em 1898, e ela foi encenada pela primeira vez em 1901. Em 1945, a ideia era ter Vivien Leigh como Cleópatra e John Gielgud como Júlio César, mas Gielgud recusou o papel devido à sua antipatia para com o diretor e produtor Gabriel Pascal. Entre 1951 e 1952, Vivien Leigh interpretou Cleópatra nos palcos, em uma dupla sessão com Laurence Olivier ao seu lado, nos papéis de Júlio César e Marco Antônio. Fui durante uma das apresentações da peça que ela foi informada de que havia ganhado seu segundo Oscar.
E a empreitada de 1945 se transformou em uma grande peça de teatro filmada. Os diálogos são típicos do teatro, a ação é quase nula (não que isso seja ruim), e às vezes as imagens em locação se parecem mais com sets unidimensionais que locais reais. O esforço para filmar foi extremo, com uma custosa viagem ao Egito para buscar areia (!!!), gravações na Inglaterra (durante a Segunda Guerra Mundial, o que fazia com que as filmagens fossem interrompidas diversas vezes por bombardeios) e até a construção de uma esfinge cenográfica gigante. Quem pagou mais caro, entretanto, foi Vivien Leigh: grávida, ela foi obrigada pelo diretor a fazer uma cena arriscada sem dublê, escorregou no chão do palácio e sofreu um aborto espontâneo. Vivien jamais perdoou o diretor Gabriel Pascal pelo ocorrido.
Situado entre uma comédia histórica e um épico prematuro, “César e Cleópatra” ainda merece ser visto. Há, é claro, a especulação de como seria o filme se Olivier interpretasse César, uma vez que Claude Rains funciona mais como uma figura paterna para a Cleópatra de Vivien Leigh. Entre a eterna Scarlett e o eterno Capitão Renault não há nenhuma tensão sexual, e muito menos indícios do início de uma bela amizade.


This is my contribution to the Vivien Leigh and Laurence Olivier blogathon, hosted by Wolffian Classics Movies Digest.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again (1939)

Arrisco-me dizendo que 1939 foi o ano mais importante para o século XX. Em 1939 começou a Segunda Guerra Mundial, conflito que marcaria a história da humanidade. Em 1939 a Guerra Civil Espanhola terminou. Em 1939 Batman fez sua primeira aparição nos quadrinhos. E em 1939 os westerns ressuscitaram – e não somente eles, também alguns dos “venenos de bilheteria”, as personas non gratas de Hollywood. Marlene Dietrich foi uma delas.
Em “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again”, temos todos os elementos que povoam um gênero cinematográfico e o imaginário sobre o Velho Oeste. Saloon? Temos. Muita bebida? Temos. Xerifes? Temos. Jogos de pôquer? Temos. Bêbados e músicos malucos? Temos. Tiroteio? Temos. Pegue seu chapéu e não se esqueça das esporas: o western está mais vivo do que nunca.
Após o xerife Keogh (Joe King) ser assassinado a mando do inescrupuloso Kent (Brian Donlevy), dono do saloon, o prefeito aponta Washington Dimsdale (Charles Winninger), um músico bêbado, como novo xerife. Mas Washington é mais esperto do que parece e, para moralizar a cidade, chama Tom Destry Jr. (James Stewart), filho do homem que “limpou Tombstone”.
Mas Destry não parece nem um pouco perigoso: alto, sorridente, cavalheiro, tem como hobby fazer pequenas esculturas de madeira e, para completar, não carrega consigo uma arma. Por isso ele se torna motivo de escárnio para a dançarina Frenchy (Marlene Dietrich). Conseguirá Destry, sem usar violência, provar que o xerife Keogh foi assassinado e colocar os criminosos na cadeia?
São responsáveis pelo humor do filme Mischa Auer, como o ciumento vagabundo Boris, e Charles Winninger, excelente ator que em 1953 protagonizaria o belo e esquecido filme de John Ford “O Sol Brilha na Imensidão / The Sun Shines Bright”.
Em 1939, a carreira de James Stewart se consolidava. É neste ano que ele interpreta seu melhor e mais visceral papel (porém não o mais famoso) em “A Mulher faz o Homem / Mr Smith Goes to Washington”. Stewart só ficou com o papel de Destry porque Gary Cooper pediu um salário alto demais e foi dispensado pela produção. Com Marlene Dietrich, ele protagoniza uma das melhores brigas de saloon de todos os tempos (deixando para trás John Wayne e Randolph Scott em “Indomável / The Spoilers”, de 1942).
Em 1938, um infeliz proprietário de cinema chamado Harry Brandt escreveu um artigo listando os “venenos de bilheteria”, atores e atrizes que recebiam altos salários em seus estúdios, mas cujos filmes não eram sucesso de bilheteria. Na lista negra estavam Dietrich, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Mae West, Greta Garbo, Kay Francis e Fred Astaire. O artigo teve grande impacto no meio cinematográfico, e 1938 foi um ano de vacas magras e poucas oportunidades para os artistas citados.
Quase todos os venenos de bilheteria deram a volta por cima. Em 1939, Garbo fez “Ninotchka” e Crawford fez “As Mulheres / The Women”. Em 1940, Hepburn voltou triunfante com “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” e Mae West se juntou a W.C. Fields para “Minha Dengosa / My Little Chickadee”. Fred Astaire voltou a dançar, nos anos seguintes, com Eleanor Powell, Rita Hayworth e Cyd Charisse.
Marlene Dietrich, após negar uma oferta do Terceiro Reich para voltar para a Alemanha e se tornar “estrela nazista”, foi convencida a participar de “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again” por dois dos homens mais importantes de sua vida: Josef Von Sternberg e Erich Maria Remarque. Remarque inclusive argumentou que participar de um western faria com que o público americano simpatizasse com Marlene, e assim ela poderia combater os nazistas.
Marlene havia deixado a Paramount depois de ser chamada de veneno de bilheteria. Em 1939, a Universal Pictures já havia passado por sua fase áurea com Drácula, Frankenstein e derivados. O estúdio sobreviva com Deanna Durbin e filmes de baixo orçamento, e vez ou outra recebia algum astro “emprestado” de outro estúdio. A mistura de humor e ação do filme foi certeira, e “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again” foi muito elogiado.
Divertido, 100% western, com um final coerente para o romance sub-explorado de Destry e Frenchy (que espelharia o romance real acontecendo entre Stewart e Dietrich), este filme é uma pérola do prolífico e seguro diretor George Marshall.

This is my contribution to the Universal Pictures Blogathon, hosted by Constance and Diana Metzinger at Silver Scenes.
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