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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Zulu (1964)

A história é tão velha quanto a humanidade: um grupo invade o espaço de outro por considerar-se mais evoluído / civilizado. O discurso é de boas intenções, de levar conhecimentos e religião para o povo inferior, mas o choque de culturas é mais forte que qualquer ato de bondade, e explode uma guerra. Vemos isto acontecendo à exaustão nos westerns, em que os homens das carruagens chegam para conquistar a terra dos índios selvagens. Mas este processo aconteceu em toda e qualquer colonização, e não foi diferente com os ingleses e os zulus.
Baseado em fatos reais, “Zulu” mostra uma batalha da Guerra Anglo-Zulu de 1879, que aconteceu no território onde hoje é a África do Sul e que na época era colonizado pelos ingleses. São quatro mil zulus contra algumas centenas de soldados ingleses, comandados pelo tenente John Chard (Stanley Baker) e pelo inexperiente tenente Gonville Bromhead (Michael Caine). Juntam-se a eles o missionário Otto Witt (Jack Hawkins) e sua filha Margareta (Ulla Jacobson), que querem evitar qualquer tipo de violência.
É um filme visualmente belo, que não precisa de efeitos especiais computadorizados para impressionar: o vermelho do uniforme contrasta com a paisagem árida, com a pele dos nativos e com as roupas de algodão cru disponíveis naquele fim de mundo. Torcer pelos nativos é como torcer pela baleia em Moby Dick: quase natural. Afinal, não eram os ingleses os invasores? É provável que o filme tenha sido feito com um grande discurso patriótico por trás, mas para uma estrangeira como eu que o vê com olhos mais críticos, não há motivos para os ingleses se orgulharem de seus antepassados. Embora não haja glamour no massacre, não há também honra, e o personagem mais interessante, embora com pouco tempo em cena, é de fato o missionário de bom coração (observe-o durante as cenas no hospital!).
E se havia guerra nas telas, nos sets de filmagem a situação era igualmente delicada: o filme foi gravado na África do Sul durante o Apartheid, e um incidente envolveu um membro da equipe quase condenado a sete anos de trabalhos forçados por ter se envolvido sexualmente com mulheres negras. Ao final, o Apartheid inclusive impediu os muitos extras zulus de verem a estreia do filme nos cinemas.
Enquanto via “Zulu”, me lembrei de muitos outros filmes: “Uma Aventura na África / The African Queen” (1951), com seus missionários bem-intencionados que se encontram no meio de uma guerra; “A Ponte do Rio Kwai / The Bridge Over the River Kwai” (1957), por ter uma ponte em construção; “Lawrence da Arábia” (1962) pela atitude muitas vezes prepotente do personagem de Michael Caine caçando um leopardo; “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939), pelo caos em meio ao fogo...
E todos estes filmes em um nos fazem chegar à conclusão: todas as guerras são iguais. Sejam elas travadas com armas, flechas, escudos ou baionetas, o sofrimento e a destruição é sempre igual, ultrapassando fronteiras e barreiras de linguagem. Os rituais antes e depois da batalha, os gritos e hinos de guerra, as perdas no campo de batalha e nos hospitais improvisados são cicatrizes que ficam para sempre na memória dos envolvidos diretamente na guerra e também em seus descendentes. Pode haver honra, admiração mútua entre os combatentes, mas uma coisa é certa, mostrada pelo cinema e confirmada pela história: guerra é sempre guerra.


This is my contribution to the Second Annual British Invaders Blogathon, hosted by my friend Terence at A Shroud of Thoughts. Yes, sir!


quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Caminho do Rio / Road to Rio (1947)

O ano é 1947. Desde 1944 Bing Crosby detinha o título de ator com maior sucesso de bilheteria. Em uma situação muito confortável, ele fez com seus parceiros Bob Hope e Dorothy Lamour o quinto dos sete filmes da série “Road to...”, que misturavam comédia, romance e musical em cenários exóticos. Desta vez os três astros iriam para o Rio de Janeiro, e o resultado, além de um filme divertidíssimo, é a imagem mais fiel do Brasil pintada pela era de ouro dei Hollywood.
É como Crosby, junto com as Andrews Sisters, canta sobre o Brasil: não é preciso entender a língua para compreender o que acontece aqui. Bastam a lua, o céu e uma garota nos seus braços. Aí é só olhar fundo nos olhos dela e as palavras serão supérfluas. Mas o riso é garantido.
Scat Sweeney (Bing Crosby) e ‘Hot Lips’ Barton (Bob Hope) estão atrás de mulheres. A busca da dupla já terminou com tiros e homens irados em diversos estados dos Estados Unidos, e a nova empreitada deles também é um fracasso: eles fazem, literalmente, um circo pegar fogo. Na fuga desesperada, eles entram como clandestinos no navio “Queen of Brazil”.

No navio viajam Lucia Maria de Andrade (Dorothy Lamour), sua tia / guardiã / hipnotizadora Catherine Vail (Gale Sondergaard) e mais uma galeria de personagens com alto potencial cômico, incluindo uma banda. Metade do filme se passa neste trajeto que por vezes fica lento, mas nunca cansativo.
Eles são recebidos no Brasil com a mesma música que recebeu o pato Donald cinco anos antes: “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. A música, só instrumental, sem letra, também acompanha os créditos iniciais, quando os nomes do trio protagonista aparecem dançando sobre a paisagem de Copacabana.

Felizmente, não há os absurdos costumeiros que vemos quando o Brasil é mostrado no cinema de Hollywood. Não há macacos nem papagaios nas ruas e as pessoas não falam espanhol. Bing Crosby, para surpresa geral, pronuncia até muito bem algumas frases em português. É incrível pensar que cenários tão realistas, como a roda de samba, o hotel e a mansão que aparece no final do filme, foram todos construídos nos estúdios Paramount, mas, obviamente, com boa pesquisa prévia. Observe as roupas dos músicos, os instrumentos e até os cartazes em português! 
E são os Wiere Brothers, também falando um pouco de português, que roubam a cena. Os três irmãos Wiere nasceram na Europa, durante as muitas viagens teatrais dos pais, e foram para os Estados Unidos na década de 1930, mas fizeram poucos filmes. Os palcos continuaram sendo sua morada.
A maioria das piadas vem de diálogos espirituosos, mas há duas longas sequências mudas: na primeira, Hope e Crosby se passam pelo barbeiro e pelo engraxate do navio, e destroem o bigode de um passageiro; e na segunda há uma confusa troca de chapéus, no melhor estilo comédia pastelão / slapstick comedy.

Talvez “Road to Rio” não seja um filme realmente especial. Mesmo assim, foi o sexto maior sucesso de bilheteria de 1947, arrecadando o equivalente a 4,5 milhões de dólares. É uma comédia excelente, do tipo que não é mais feito na atualidade, e que consegue ser ao mesmo tempo um pouquinho apimentada e inteligentemente inocente. Porque é essa mágica que o Rio de Janeiro fez com Crosby, Hope e Lamour.

This is my contribution to the 1947 blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin and Kristina at Speakeasy. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Os reis do iê-iê-iê / A Hard Day's Night (1964)

A Hard Day's Night” começa como um dia qualquer na vida do quarteto mais famoso dos anos 60: com os Beatles fugindo de uma multidão de fãs histéricas. Se você é como eu, e a história de um filme é o que mais importa, então pode pôr seu cérebro no modo descanso e aproveitar: o importante aqui é curtir a atração, sem tentar compreender uma história que não faz sentido – ou talvez  faça sentido porque só poderia acontecer nos bastidores do mundo da televisão.
Os Beatles (John, Paul, Ringo e George) vão gravar um programa de televisão. Para chegar aos estúdios eles viajam de trem com seus empresários e levam a tiracolo o avô de Paul McCartney (Wilfrid Brambell), um idoso fora dos padrões... e também muito limpo. A principal função deste avô é criar o caos por onde passa, seduzindo moças, falsificando assinaturas, participando de uma ópera por engano e finalmente fazendo Ringo se rebelar, no melhor estilo Ferris Bueller.
Eles são celebridades muito, muito irreverentes, que fogem das fãs, da imprensa e estão sempre desafiando a autoridade (empresários, diretores de televisão). Esta rebeldia conquistava o público, e sem dúvida fez com que muitos espectadores imaginassem como seria legal ser amigo dos Beatles (mais de 50 anos depois da estreia do filme eu ainda sonho com esta oportunidade). Neste sentido, o filme pode ser visto como a visão dos próprios Beatles sobre a fama: não é possível levar tudo e todos a sério quando se é uma celebridade. E talvez não seja preciso levar tudo e todos a sério em momento algum da vida, mesmo para as pessoas comuns.
O filme consegue ser psicodélico sem precisar de truques de câmera ou de cores ousadas (e se o filme fosse colorido, se aproximaria muito de uma obra de Wes Anderson). Os Beatles se comportam como versões muito jovens dos irmãos Marx, e é impossível perceber todas as piadas, frases espirituosas e situações cômicas vendo o filme pela primeira vez. Apenas múltiplas visitas ao grande sucesso dos Beatles no cinema são capazes de transmitir a qualidade cômica e transgressora da obra. Cada frase distorcida ou resposta malcriada é dita com toda a seriedade por rostos estoicos que dariam orgulho a Buster Keaton. As cenas de perseguição perto do final, aliás, lembram muito os curtas-metragens de Keaton, em especial “Cops” (1922).
Apesar de tanta comédia, o filme é sobretudo um musical feito para mostrar o talento da maior banda do momento. Não apenas durante o show, mas em várias cenas ao ar livre os sucessos dos Beatles podem ser ouvidos, entre eles: “A Hard Day's Night” (obviamente, e que foi composta durante as filmagens), “She Loves You”, “Can't Buy Me Love”, “I Should Have Known Better”, “And I Love Her”, “I Wanna Be Your Man” e “All My Loving”.
Nos anos 60 os jovens estavam se rebelando contra os valores ultrapassados do pós-guerra e ensaiando a mudança no mundo. Se fosse necessário escolher um ícone cultural que representasse este mudança, sem dúvida seriam os Beatles. E nunca eles foram mais rebeldes que neste filme. Apesar de quase todas as músicas falarem de amor, é a rebeldia dos músicos que contrasta e conquista. Até o final de 1964, o filme arrecadou doze milhões de dólares nas bilheterias americanas (seu custo foi de apenas meio milhão). A Beatlemania estava só começando!


This is my contribution to the Beatles Film Blogathon, hosted by Steve at Movie Movie Blog Blog. Twist and Shout!

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