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quarta-feira, 29 de março de 2017

Gilda de Abreu: inigualável

Quando procuramos pelo nome de Gilda de Abreu no site da Cinemateca Brasileira, não encontramos nenhum resultado. Zero. E isso é vergonhoso. Ela pode ter dirigido apenas três longa-metragens, mas ela foi muito mais que a pioneira do cinema que merece ser celebrada no mês da mulher: Gilda foi atriz, cantora, roteirista, escritora e compositora. Ela também foi esposa do famoso cantor Vicente Celestino. Juntos, eles eram como Jeanette MacDonald e Nelson Eddy – e, ao contrário da dupla americana, eles viveram felizes para sempre.

When we look for Gilda de Abreu’s name at the Brazilian Cinémathèque website, we get no results. Zero. It’s a total shame. She may have directed only three feature films, but she was much more than the pioneer who should be celebrated all March long: she was an actress, singer, screenwriter, author and composer. She was also the wife of famous singer Vicente Celestino. Together, they were the Jeanette MacDonald and Nelson Eddy from Brazil – and, unlike the American duo, they lived happily ever after.
Nenhum dos filmes de Gilda está disponível em DVD e, obviamente, nem na Netflix. Apenas seu filme mais famoso é exibido, ainda que raramente, na sessão de meia-noite de sábado na TV Brasil. Sobre sua vida e carreira, encontrei apenas uma dissertação de mestrado escrita em 2006. Gilda está quase escquecida – e não deveria.

None of Gilda's films are on DVD nor, of course, on Netflix. Only her most famous movie is aired, in rare events, in the Saturday midnight screening on a public TV station. About her life and career I could find only a master’s dissertation written in 2006. Gilda is almost forgotten – and she shouldn’t be.
1936
Gilda de Abreu (que às vezes você encontra também como “Gilda Abreu”) nasceu em Paris em 1904. Seu pai era diplomata e sua mãe, cantora. Aos quatro anos de idade, ela veio para o Brasil. Sua mãe a ensinou a cantar, e nos anos 20 Gilda protagonizou diversas óperas. Seu primeiro disco foi lançado em 1930 e em 1933 ela se casou com Vicente Celestino.

Gilda de Abreu (sometimes referred to as “Gilda Abreu”) was born in Paris in 1904. Her father was a diplomat, her mother, a singer. At age four, she came to Brazil. Her mother trained her to be a singer, and in the 1920s Gilda starred in several operas. Her first record was released in 1930 and in 1933 she married Vicente Celestino.
O primeiro filme de Gilda foi “Bonequinha de Seda”, de 1936. Ela fez a protagonista depois que Carmen Miranda recusou o papel porque as filmagens interfeririam com outros compromissos. E a mudança foi justa – afinal, Gilda compôs a valsa que inspirou o filme! Este filme foi uma superprodução que filmou multidões como nunca antes fora feito no cinema brasileiro. O filme foi restaurado recentemente, mas ainda não saiu em DVD.

Gilda’s first film was “Bonequinha de Seda” (roughly translated as “Little Silk Doll”), from 1936. She played the lead role after Carmen Miranda couldn’t accept it due to other commitments. This was just fair – after all, Gilda had created the waltz that inspired the movie! This film was a Brazilian fancy production that used crowd scenes like it was never made before. The film was restored recently, but no DVD was released so far.
Gilda foi a terceira mulher a dirigir um filme no Brasil. A primeira a dirigir, produzir e estrelar um filme foi Cleo de Verberena, que fez o filme mudo “O Mistério do Dominó Preto” em 1931. Carmen Santos foi a outra cineasta precursora, entretanto seu complexo e problemático filme estreou somente depois de Gilda ter dirigido seu primeiro filme.

Gilda was the third woman to direct a film in Brazil. The first woman to direct, produce and star in a movie in Brazil was Cleo de Verberena, who did the silent film “O Mistério do Dominó Preto” (roughly translated as “The Mystery of the Black Tile”) in 1931. Carmen Santos was the other precursor female filmmaker, however her complex and troubled film only premiered after Gilda had made her directing debut.
Cleo de Verberena
Carmen Santos
“O Ébrio” foi a estreia de Gilda como diretora. Foi uma adaptação de uma peça escrita por Vicente Celestino, que também compôs as músicas e ficou com o papel principal. “O Ébrio” é uma história de um homem que vai da riqueza à pobreza à riqueza e à pobreza novamente. E é surpreendentemente noir.

“O Ébrio” (“The Drunkard”) was Gilda’s debut at the director’s chair. It was an adaptation of a play written by Vicente Celestino, who also composed the songs and played the lead role. Gilda adapted the play to the film language. “The Drunkard” is a story of riches to rags to riches to rags again. And it’s surprisingly noirish.
Gilberto (Celestino) está sem sorte. Sua família perdeu toda a fortuna. Seus amigos e parentes se recusaram a ajudá-lo. Ela encontra ajuda apenas na igreja. E é na música que Gilberto encontra mais uma vez esperança: ele participa de um programa de calouros na rádio, fica famoso e consegue pagar a faculdade. Ele então se torna médico.

Gilberto (Celestino) is out of luck. His family lost all its wealth. His friends and relatives refused to help him. He only finds help in the church. And it is music that gives Gilberto hope once again: after singing on a radio show, he becomes famous and is able to pay for his college education. He then becomes a doctor.
Os toques noir vêm de todo lado: há a presença de um narrador, alguns flashbacks, uma femme fatale – e também um homme fatale. Você já viu uma trama noir começar no hospital? Bem, aqui isto ocorre.

The noir touches come from all the places: the voiceover narration, some flashbacks, the femme fatale – and also the home fatale. Have you ever seen a noir story starting in a hospital? Well, here it does.
Há uma sequência curiosa em que a consciência de Gilberto se manifesta no reflexo de um espelho, e foi este detalhe que mais me agradou na direção de Gilda. Há também alguns momentos cômicos – talvez um pouco inapropriados, mas mesmo assim bastante divertidos.

There is a curious sequence in which Gilberto’s conscience speaks with him through a mirror reflection, and this bit was what I liked the most in Gilda’s direction. There are also some comic moments – maybe a little inappropriate, but very amusing nonetheless.
Destruído, traído, sem esperança, Gilberto se torna um ébrio. Sua representação do alcoolismo é cômica em alguns momentos, mas no geral sombria. Às vezes é até melhor que a de Ray Milland em “Farrapo Humano” (1945). E então Gilberto canta a canção principal:

Destroyed, betrayed, hopeless, Gilberto becomes a drunkard. His representation of alcoholism is comic at times, but overall very dark. Sometimes it’s even better than Ray Milland’s in “The Lost Weekend” (1945). And then Gilberto sings his signature song:
“O Ébrio” se transformou em um fenômeno de bilheteria. Em algumas cidades,  foi um sucesso maior que “E o Vento Levou...” (1939)! 500 cópias do filme foram feitas para distribuição, e e é surpreendente que o negativo não tenha sido muito danificado no processo.

“The Drunkard” became a major box office hit. In some cities, it was a success at the box office much bigger than “Gone with the Wind” (1939)! 500 copies of the film were made to be distributed, and it’s surprising that the negative was still in such a good shape.
Cerca de 8 milhões de pessoas assistiram ao filme (o suficiente para colocá-lo entre os cinco maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro) – em uma época em que a população total do Brasil era de cerca de 50 milhões, 1 em cada 6 pessoas tinha visto “O Ébrio” nos cinemas. E não era o filme planejado por Gilda. “O Ébrio” foi extremamente dilacerado na edição para se tornar menor e mais triste. Em 1998 o filme foi restaurado, e hoje tem 125 minutos de duração. A versão de 1946 tinha 87 minutos.

About 8 million people watched the movie (enough to put it in the TOP 5 in Brazilian cinema) – in a time when the whole Brazilian population was about 50 million people, 1 in 6 had seen “The Drunkard”. And it was not the movie intended by Gilda. “The Drunkard” was mercilessly cut in order to become shorter and sadder. In 1998 the film was restored, and it now runs 125 minutes. The 1946 cut ran 87 minutes.
O filme seguinte dela foi “Um Pinguinho de Gente”, de 1949. Desta vez, Vicente não fazia parte do elenco, mas em um papel coadjuvante havia um homem que se tornaria uma estrela: Anselmo Duarte, futuro galã e diretor de “O Pagador de Promessas” (1962), ganhador da Palma de Ouro em Cannes.

Her next film was 1949’s “Um Pinguinho de Gente” (a cute expression to refer to children). This time, Vicente was not part of the cast, but there was in a supporting role a man who would become a star: Anselmo Duarte, future heart-robber and director of “The Given World” (1962), winner of the Palme D’Or in Cannes.
Mas Anselmo era um mau ator na época. Se não fosse por Gilda talvez ele nunca teria se tornado um grande ídolo. Ele recorda o episódio em um livro: “Sabia que era um ator de merda, mas tinha boa estampa, o que me permitia seguir em frente... Gilda pediu que eu repassasse o diálogo antes da filmagem. Eu disse as frases de uma maneira meio mecânica e ela me deu um tabefe na cara. O tapa foi forte, mas pior que isso foi a vergonha.... Uma bofetada da diretora Gilda Abreu me transformou em ator."

But Anselmo was a lousy actor back then. If it wasn’t for Gilda, maybe he wouldn’t have become a great one. He remembers the episode in a book: “I knew I was a bad actor, but I looked good, so I had to go on acting… Gilda asked me to rehearse my dialog. I said my lines in a mechanical way and she punched me in the face. She punched me hard, but the worst thing was how ashamed I felt… A punch from Gilda de Abreu turned me into an actor”.

Left to right: Francisco Alves, Aurora Miranda, Carmen Miranda, Manuel Pinto, Gilda de Abreu, Vicente Celestino. 1933
O terceiro e último filme de Gilda como diretora foi “Coração Materno”, de 1951. Ela e Vicente estrelam o filme, que mais uma vez surgiu de uma peça escrita por Celestino.

Gilda’s third and final film as a director was “Coração Materno” (“Motherly Heart”), released in 1951. She and Vicente star in this film, once again based in a play written by Celestino.
Em “Coração Materno”, a história é toda contada em flashback. É o século XIX. Vicente interpreta Carlos, que foi abandonado em uma igreja quando bebê e criado pelo padre. Gilda interpreta Violeta, uma moça rica que desperta paixão tanto de Carlos quanto de um rico conde. O filme tem mal-entendid0s novelescos, reviravoltas, alívio cômico, muitos momentos musicais, pano de fundo religioso e muito drama.

In “Motherly Heart” the story is completely told in flashback. It’s the 19th century. Vicente plays Carlos, who was abandoned in a church as a baby and was raised by the local priest. Gilda plays Violeta, a rich woman pursued by both Carlos and a rich count. The film has misunderstandings, surprises, comic relief, many musical moments, a very religious background and a lot of drama.
Gilda mostra maturidade na direção de “Coração Materno” porque é um filme cheio de desafios: ela dirige, atua e canta em um filme que se passa nos anos 1800, e deve haver muita atenção ao detalhe e à ambientação – algo que não era tão necessário em “O Ébrio”. Há cortes inventivos, e até uma cena fundamental com efeitos especiais impressionantes.

Gilda shows how mature she was while directing “Motherly Heart” because there are a number of challenges to be faced here: she both directs, acts and sings; this is a film set in the 1800s, and there should be a lot of attention to detail – s0mething that she didn’t need in ‘the Drunkard”. There are clever cuts, and even a key scene with impressive special effects.
Infelizmente, Gilda parou de dirigir filmes após “Coração Materno”. Comédias musicais – as chanchadas – começaram a dominar o cenário cinematográfico no Brasil. A partir de então, Gilda se concentrou em escrever. Ela escreveu o roteiro de um filme sobre o músico Francisco Alves em 1955, escreveu radionovelas e transformou suas peças em livros. Ela escreveu outros livros, como “Mestiça”, publicado em 1944.

Unfortunately, Gilda stopped directing after “Motherly Heart”. Musical comedies – known as “chanchadas” – started dominating the film scene in Brazil. From then on, Gilda wrote. She wrote the screenplay for a movie about musician Francisco Alves in 1955, she wrote radio shows – in special soap operas for the radio – she adapted her plays into books. She wrote other books, like “Mestiça”, published in 1944.
Vicente Celestino morreu em 1968, aos 74 anos. Ele e Gilda não tiveram filhos. Em 1977 ela dirigiu um documentário de curta-metragem sobre o marido, e em 1979 ela faleceu. Seu livro “Minha Vida com Vicente Celestino” foi publicado apenas em 2003. Eu gosto de pensar que a profecia que o personagem de Vicente diz em “Coração Materno” se tornou realidade. Nela, ele diz: “Somos e seremos um do outro até mesmo depois da morte”.

Vicente Celestino died in 1968, at age 74. He and Gilda had no children. In 1977 she directed a short documentary about her husband, and in 1979 she died. Her book about Vicente, “My Life with Vicente Celestino”, was finally published in 2003. I like to think that the prophecy Vicente’s character does in “Motherly Heart” became true. In it, he says: “We belong to each other, and we’ll always belong, even after death”.

 Nunca houve uma mulher como Gilda de Abreu.

There has never been a woman like Gilda de Abreu.


This is my contribution to the Early Women Filmmakers blogathon, hosted by mighty Fritzi at Movies, Silently.

6 comentários:

Fritzi Kramer disse...

Thanks so much for joining in with this information! Here's hoping some of this remarkable director's films will be made available to the public soon.

Lynn Elizabeth disse...

Thanks for telling Gilda's story! She sounds like a fascinating and talented woman. I hope that her films will become accessible so they can be enjoyed and she can be better remembered.

Joe Thompson disse...

Hi Le. Your opening lines were perfect but very sad: "When we look for Gilda de Abreu’s name at the Brazilian Cinémathèque website, we get no results. Zero." I'm happy you were able to find so much information about Gilda de Abreu. That was an excellent survey of her life and career.

Elaine @ Classic Movie Treasures disse...

Thank you for sharing her story. I checked in IMDb and she does have an entry, albeit brief, in their database. Here is the link if you would like to view it. http://www.imdb.com/name/nm0009341/?ref_=fn_al_nm_1. Thanks for submitting to The Classic Movie Marathon Link Party. Hope to see you again next week.

Gustavo disse...

Em primeiro lugar, muito obrigado pelo texto. Nosso país tem um descaso patológico com a própria memória, e trazer à tona histórias como a dessa artista sempre faz bem. Só uma correção: fiz uma pesquisa no site da cinemateca brasileira e tive 35 referências ao nome de Gilda de Abreu. Para conferir, é preciso pesquisar na guia que fica na parte inferior da página principal, "filmografia brasileira" (que redireciona para o link http://bases.cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p ). A pesquisa no canto superior é apenas para a programação da cinemateca.

Silver Screenings disse...

I burst out laughing at the story of Gilda punching that actor in the face. Whoa! I did not expect that.

I'm sorry I missed this essay when you first published it. I'd never heard of Gilda de Abreu before, and I'm glad to have made her acquaintance now, thanks to you. :)

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